MST encontra fotos de trabalhadores mortos

Lavradores ligados ao Movimento Nacional dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST), que invadiram ontem a Usina Aliança, no município de Aliança, em PE, encontraram no escritório da empresa 9 fotos de 8 trabalhadores mortos, carteiras de trabalho retidas e fichas de trabalhadores menores de idade. O delegado de Aliança, Carlos Veloso, disse hoje que iniciará uma investigação para esclarecer quem são os trabalhadores mortos e as causas das mortes.O advogado do MST, Dominici Sávio Mororó, informou que o Ministério Público será acionado para acompanhar as investigações. "Estas fotos poderão comprovar o que se vem denunciando há muito tempo, que os proprietários torturam e assassinam trabalhadores enquanto a sociedade fecha os olhos", disse Mororó. Algumas das fotos mostram homens mortos a bala, a facadas e um atropelado por caminhão.O chefe da segurança da Usina Aliança, Júlio Lopes da Silva, argumentou que a empresa costumava registrar todas as mortes de trabalhadores ocorridas na área da propriedade. O segurança foi preso, à tarde, pelo delegado Veloso, por porte ilegal de arma. Ele e um outro segurança usavam espingardas calibre 12 e a polícia civil encontrou um rifle 44 e cartuchos intactos e deflagrados dentro da casa grande da usina, depois de uma revista autorizada pelo Grupo Pessoa de Melo, dono da empresa. Júlio Lopes da Silva iria depor na delegacia e depois poderia ser liberado mediante pagamento de fiança.A vistoria na casa grande - a 500 metros do escritório - foi feita a pedido do MST, que havia sido informado de que muitas armas eram guardadas no local. Até que a revista fossefeita Júlio Lopes da Silva ficou retido por cerca de três horas no local, de onde saiu preso. O delegado disse que não ia enquadrar nenhum dos invasores, que também descumpriam a lei, "porque em situação de conflito se deve usar o bom senso". Ele lembrou que eram 14 policiais (entre civis e militares) contra quase mil trabalhadores.A decisão de invadir a Aliança se deveu à revolta dos sem-terra com a atitude dos proprietários, que conseguiram sustar no início do ano, na Justiça Federal, através de liminar, o processo de desapropriação de 22 engenhos da usina - 7 mil hectares no total - considerados improdutivos pelo Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). No ano passado, a usina havia requerido uma nova vistoria.De acordo com o superintendente-adjunto do órgão, Roberto Rodrigues, o pedido foi atendido, sendo ratificada a improdutividade das terras. O Incra entrou com recurso no Supremo Tribunal Federal e aguarda a decisão para continuar a desapropriação, aguardada por mais de mil trabalhadores.A invasão marcou o início da Marcha Nacional pela Reforma Agrária em Pernambuco. Os sem-terra devem deixar a usina amanhã, seguindo em caminhada por outros cinco municípios até chegar ao Recife, onde fazemato público no dia 17, dia Internacional de Luta pela Reforma Agrária, e lembram os 19 sem-terra mortos por policiais militares em Eldorado dos Carajás no Pará.

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