MST desocupa fazenda Jabuticaba em Pernambuco

Sem-terra relutaram em aceitar abandonar a lavoura plantada no local

Angela Lacerda, de O Estado de S. Paulo,

04 de março de 2009 | 18h46

Onze dias depois do assassinato de quatro seguranças da Fazenda Jabuticaba, por acampados do MST, os trabalhadores sem-terra deixaram na tarde desta quarta-feira, 4, a propriedade, sob a supervisão do ouvidor agrário nacional e presidente da Comissão Nacional de Combate à Violência no Campo, Gercino Silva Filho. Os acampados relutaram em aceitar o acordo realizado no dia anterior, no Recife, que previa que eles não poderiam voltar ao local, por nenhum motivo, inclusive cuidar das lavouras cultivadas na fazenda. Veja também: Comissão cobra desarmamento em Pernambuco Foi preciso a intervenção da educadora e mulher do líder estadual Jaime Amorim, Rubineusa Souza, que foi ao acampamento: "A situação não é tranquila, é conflituosa" disse aos acampados. "Se nos propusemos a sentar numa mesa de negociação é porque, na situação de hoje é necessário fazer acordos". Diante do argumento dos acampados de que poderiam passar fome, sem a lavoura de feijão, milho e mandioca que começaram a plantar há cerca de um mês, segundo eles em um total de cerca de 10 hectares, Gercino Silva se comprometeu a suprir os acampados com 100 cestas básicas mensais. O comum é a entrega de cestas básicas quatro vezes ao ano. Com a saída dos sem-terra, que se transferiram para uma propriedade de um hectare pertencente a "uma companheira", a um quilômetro do acampamento, a medição da Jabuticaba terá início na segunda-feira, pelo Incra. Se a área for maior de 525 hectares, será vistoriada com fins de reforma agrária. Se menor, os sem-terra devem se comprometer a nunca mais ocupá-la (o que já fizeram nove vezes nos últimos cinco anos), pois ela estaria fora do padrão para o programa de reforma agrária. "Não vamos desistir" Nenhum dos sem-terra, nem o próprio líder estadual Jaime Amorim, trabalham com a possibilidade de a propriedade ter os 247 hectares que o porta-voz dos proprietários, Solano Guedes, afirma ter. "Não vamos desistir, depois da medição vamos reocupar", antecipou o sem-terra José Manoel da Silva, 54 anos, há cinco anos no local e beneficiário do Bolsa-Família. "Estamos cumprindo o acordo de sair agora, mas tenho 100% de certeza que vai dar mais de 525 hectares", afirmou Jaime Amorim, por telefone. Para Gercino, a situação em São Joaquim do Monte está "apaziguada". Ele observou que se a Jabuticaba estiver imune à reforma agrária, o Incra irá encontrar e negociar área para assentar os acampados.  O secretário especial de Direitos Humanos da Presidência da República e integrante da comissão nacional de combate a violência no campo, Aílson Silveira Machado, mostrou-se impressionado com as mortes, a tiros, dos quatro seguranças contratados pela fazenda. "É um caso atípico", afirmou. "Em 30 anos que trabalho com direitos humanos é a primeira vez que vejo mortes do outro lado, que não seja morte de trabalhador". Ele destacou sua preocupação com a segurança dos sem-terra da região, que podem ser alvo de vingança ou retaliação depois da chacina dos quatro seguranças. Ontem (4) dois fatos novos que podem ter vinculação com o caso vieram à tona - o carro fusca do sem-terra preso e indicado por homicídio qualificado, Aluciano Ferreira dos Santos, foi incendiado logo depois dos crimes e um acampado da Jabuticaba, José Ivanildo Paiva, foi atingido por um tiro pouco depois da meia noite do dia do conflito. Ele havia saído do seu barraco para fazer suas necessidades fisiológicas e foi atingido na mão e nas coxas. Ele foi atendido numa clínica local, recebeu alta e vai se submeter a perícia. O autor da agressão é desconhecido. O MST não valorizou o fato. Inquérito equilibrado Antes de ir ao acampamento, para comprovar a saída pacífica dos sem-terra, o ouvidor agrário nacional conversou com o delegado de São Joaquim do Monte, Luciano Francisco Soares, e considerou o inquérito policial como "equilibrado". "O delegado está fazendo uma investigação ampla, não só no que se refere aos homicídios, mas também no combate às milícias armadas". Segundo ele, "só assim vamos ter diminuição dos conflitos agrários e principalmente a diminuição da violência e homicídios na zona rural".  O delegado, que já ouviu oito pessoas, entre testemunhas do crime e sem-terra, garantiu que também irá ouvir os fazendeiros, para investigar seu eventual envolvimento com o fornecimento de armas ilegais aos seguranças contratados. No domingo, foram encontradas três armas enterradas perto da Jabuticaba e identificadas como pertencentes aos seguranças pelo segurança que sobreviveu à chacina, Donizete de Oliveira Souza, 24 anos. Gercino também visitou o promotor Luciano Bezerra da Silva, ainda não ofereceu a denúncia à justiça, o que só pretende fazer com a conclusão definitiva do inquérito policial.

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