MST ataca "cegueira" do modelo de agronegócio

Em evento de comemoração dos 20 anos de fundação, o Movimento dos Sem-Terra atacou nesta sexta-feira a "cegueira" do modelo de agronegócio, defendeu a "ocupação simbólica" de terras produtivas e mandou um recado: as ações iniciadas no "abril vermelho" não vão parar. "Se olharmos as injustiças sociais numa perspectiva histórica, vamos ver que não somos radicais, somos é frouxos demais, pacatos e lerdos", disse um dos coordenadores nacionais do movimento, Gilmar Mauro, em palestra na Assembléia Legislativa de São Paulo.Segundo o líder sem-terra, a imposição do agronegócio como modelo de agricultura poderá levar ao "aumento das Cidades de Deus", numa referência ao bairro pobre da periferia do Rio de Janeiro que ficou famoso com o filme de Fernando Meirelles. "O problema do agronegócio é que ele não comporta o povo", afirmou Mauro, destacando que o MST não é contra a tecnologia. "É preciso, sim, estimular a tecnologia na pequena produção para que o processo tenha assimilação da mão de obra."O assessor especial da presidência e ex-ministro do Combate à Fome, José Graziano da Silva, participou do evento e fez uma advertência. "É um erro político estratégico fazer qualquer ameaça sobre o segmento do agronegócio, porque ele não é inimigo da reforma agrária", disse num auditório lotado por sem-terra e assentados ligados ao movimento. Ele lembrou a importância do agronegócio para as exportações e o interesse do setor no fortalecimento do mercado interno de massas para que possa se expandir. "Há espaço de convivência para o agronegócio e a agricultura familiar e essa aliança é fundamental." Agronegócio impede a democratização da terra, diz dom TomásEm Brasília, ao apresentar relatório da Comissão Pastoral da Terra sobre os conflitos agrários no País, o seu presidente, dom Tomás Balduíno, atacou o agronegócio, o Judiciário e o governo Lula pela lentidão da reforma agrária. ?Não é violência", disse ele, referindo-se às invasões de terras. "Vejo com bons olhos as ocupações, no sentido de mostrar a presença dessas organizações populares no campo." Conforme antecipou o Estado, o relatório mostra que o índice de conflitos agrários no País, em 2003, foi o maior dos últimos 18 anos. Dom Tomás apontou o agronegócio como um dos principais entraves à reforma agrária. "O agronegócio, que está salvando as finanças do País, é o que está impedindo a democratização da terra. Onde está a modernidade está também o maior atraso", disse, para em seguida classificar como "fraquíssima" a reforma agrária realizada pelo governo Lula até o momento. Segundo ele, a violência em 2003 foi resultado da esperança depositada pelos sem-terra na eleição de Lula. Dom Tomás ainda duvida que o governo consiga cumprir a meta de assentar este ano 115 mil famílias. Quanto ao Judiciário, dom Tomás acusou a maioria dos juízes de parcialidade ao ordenar reintegrações de posse. "A Justiça tem-se mostrado conservadora e repressiva com relação ao pessoal da terra. Isso num conluio com os governos estaduais, pois são estes que oferecem a polícia para execução dos mandatos de despejo."Em Porto Alegre, o líder do MST, João Pedro Stédile, mostrou-se decepcionado com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e cobrou uma nova política econômica. ?Nós elegemos o Lula para mudar e não para puxar o saco de banqueiros?, discursou, diante de uma platéia de 200 sem-terra e pequenos agricultores no pátio da Assembléia Legislativa do Rio Grande do Sul. Ele também atacou a burguesia, chamando-a de ?burra, estúpida e nojenta? por oferecer pouco trabalho aos pobres. ?Temos milhões de desempregados pedindo ´pelo amor de Deus, me explore´ e nem isso eles são capazes de fazer?, afirmou.

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