MPF insiste em depoimento de Ricardo Sérgio

O afastamento do delegado Deuler Rocha do inquérito que investiga a privatização da Telebrás, ocorrida em 1998, não deverá tirar do foco das investigações o ex-diretor da Área Internacional do Banco do Brasil e amigo do pré-candidato do PSDB à sucessão presidencial, José Serra, Ricardo Sérgio de Oliveira. O Ministério Público Federal devolveu à Polícia Federal os autos da investigação, com uma requisição para que sejam ouvidos os depoimentos de Oliveira de dois acionistas - o controlador do banco Opportunitty, Daniel Dantas, e o empresário Carlos Jereissati, do grupo La Fonte.O novo pedido para que Oliveira seja ouvido pode representar um reforço, por parte do MPF, em um dos objetivos do inquérito: apurar se o ex-diretor do BB cometeu crime na privatização, quando ajudou a montar o consórcio vencedor.AcareaçõesRocha pretendia, antes de convocar Oliveira e outros depoentes, ter mais informações sobre o negócio. Para isso, estava providenciando documentos. Ele também queria promover acareações entre os envolvidos e trabalhar a partir das contradições. Com o pedido do MPF, há uma mudança na investigação: o ex-diretor do BB deverá ser ouvido antes do que era inicialmente previsto. Oliveira foi acusado pelo então senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) de ter recebido R$ 90 milhões para ajudar a formar o consórcio Telemar, que comprou a Tele-Norte-Leste. Mas, em seu depoimento à PF, por carta precatória, o ex-parlamentar não forneceu indícios seguros das acusações que fez. Alguns documentos que apresentou, sem origem determinada, forneciam detalhes do negócio que já eram, em sua maioria, conhecidos. A PF considera que o depoimento foi pouco conclusivo e, praticamente, inútil.InsinuaçõesA saída de Rocha do inquérito ocorreu esta semana. Um novo delegado, Marcos Davi Salem, assumiu a Delegacia de Combate ao Crime Organizado e Inquéritos Especiais (Delecoie), onde corre a investigação, no lugar do titular anterior, Eduardo da Matta. Na última terça-feira, Salem comunicou a mudança a Rocha. Outros dois delegados da Delecoie foram substituídos. A PF, oficialmente, alega que a mudança foi ato de rotina, apesar das insinuações de ligação entre o superintendente da PF do Rio, Marcelo Itagiba, e Serra.Segundo apurou a Agência Estado, Rocha e outros policiais da Delecoie foram surpreendidos pela mudança, já que o delegado era especializado em inquéritos envolvendo escândalos financeiros. Foi ele que investigou, por exemplo, o banqueiro Salvatore Cacciola, principal acusado no escândalo do banco Marka, que acabou fugindo para a Itália. Rocha só deverá receber designação para outro posto na próxima segunda-feira. O inquérito sobre as teles ficará com a delegada Patrícia de Freitas. RotinaO superintendente da Polícia Federal no Rio de Janeiro negou nesta sexta-feira ter sido indicado para o cargo pelo pré-candidato do PSDB à presidência e classificou de absurdas as especulações de que teria afastado Rocha por motivos políticos. Segundo Itagiba, a mudança na Delecoie foi rotina, mais uma das que fez desde que assumiu, em 2001. Ele chamou a relação com Serra de profissional. "Não freqüento a casa dele, ele não freqüenta a minha", disse. "Não sou amigo nem inimigo do ministro José Serra". Disse que conheceu o tucano quando, em 1998 e 1999, trabalhou em Brasília, na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como gerente-geral de Investigação e Vigilância. Na época, Serra era ministro da Saúde, e havia muitos casos de falsificação de medicamentos. "Eu era chefe da Delegacia de Entorpecentes da Polícia Federal em São Paulo, e precisavam de alguém que conhecesse o assunto", disse. O delegado atribuiu ao "momento político que o País vive" os comentários de que afastou Rocha para ajudar Serra. "Não conheço Ricardo Sérgio", declarou.Compromisso com o PaísO delegado ressaltou que é delegado da Polícia Federal "por concurso público" há 19 anos, não tem filiação partidária e afirmou que "seu compromisso é com a PF e com o País". Ele também declarou ter sido convidado para o cargo diretamente pelo diretor-geral da PF, Agílio Monteiro Filho, sem nenhuma injunção política. "Eu estava, nesta época, chefiando a Polícia Federal no Aeroporto de Cumbica", disse ele, que assumiu em maio de 2001.Hoje, ele enviou ofício ao Ministério Público Federal, pedindo que fiscalize com rigor as investigações sobre a privatização da Telemar. O inquérito foi aberto a pedido do MPF, para investigar denúncias de corrupção e crimes de colarinho branco.O delegado também ressaltou que, desde que tomou posse, mexeu em praticamente toda a estrutura da PF no Estado, tendo substituído por delegados da sua confiança, os titulares da Delegacia Regional de Polícia, Seção Regional Administrativa, Corregedoria Regional de Polícia, Delegacia de Prevenção e Repressão a Crimes Fazendários, Serviço de Comunicação Social, Delegacia da PF em Niterói e Coordenação da Força-Tarefa de Combate a Crimes Fazendários.

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