MP quer investigar Carlos Jereissati

O Ministério Público Federal (MPF) pedirá a abertura de inquérito para apurar a participação do empresário Carlos Jereissati na aquisição e divulgação das fitas resultantes do grampo feito no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) durante a privatização de empresas de telecomunicações, em 1998. A requisição terá como base o depoimento prestado no último dia 25 à Justiça Federal de São Paulo pelo ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros.O procurador Arthur Gueiros informou ontem que aguarda apenas que o depoimento, tomado em São Paulo, seja oficialmente anexado ao processo, no Rio, para requisitar a abertura do inquérito. "Em pelo menos três pontos do depoimento, Mendonça de Barros imputa a Jereissati a compra e divulgação das fitas", afirmou Gueiros. Irmão do governador do Ceará, Tasso Jereissati, Carlos Jereissati era um dos sócios do consórcio Telemar.Mendonça de Barros afirmou à Justiça que o consórcio Telemar teria interesse em desestabilizar a direção do BNDES porque o banco se recusava a lhe conceder financiamento. A recusa ocorria porque o consórcio tinha a participação do Banco do Brasil e o edital exigia que fosse formado por empresas nacionais privadas. A solução encontrada foi a saída do Banco do Brasil do consórcio e a entrada do BNDES.De acordo com o ex-ministro, as fitas do grampo começaram a ser divulgadas quando o BNDES foi procurado pela empresa Itália Telecom, que estava interessada em comprar a parte do banco no consórcio. "As fitas foram vendidas para algum beneficiário, para quem participou ativamente de um dos leilões. As duas fitas editadas levam a um grupo de consórcio que tinha efetivo interesse em desestabilizar a direção do BNDES", afirmou o ex-ministro. "Não há dúvida de que a única liqüidação financeira que teve algum tipo de problema foi do Telemar", acrescentou. A divulgação das fitas acabou levando à queda do então presidente do BNDES André Lara Resende e de Mendonça de Barros.Banco do BrasilArtur Gueiros informou que pedirá que o ex-vice-presidente do Banco do Brasil Ricardo Sérgio de Oliveira seja ouvido no processo do grampo como testemunha referida. O procurador também tomará como base do pedido o depoimento de Mendonça de Barros. Segundo os esclarecimentos prestados pelo ex-ministro, Oliveira o teria intimidado em uma conversa privada ao revelar a existência de grampos telefônicos feitos pelo "serviço reservado do Banco do Brasil".De acordo com Mendonça de Barros, Oliveira teria ainda feito uma ameaça velada ao então presidente do BNDES André Lara Resende. "Avisa ao André que há gravações de natureza pessoal a respeito dele", teria dito.Fernando HenriqueO Ministério Público enviou novo pedido à Justiça para que o presidente da República, Fernando Henrique Cardoso, seja ouvido, na qualidade de ofendido, no processo do grampo do BNDES. Em duas outras ocasiões o presidente foi oficiado e enviou a mesma resposta: "não disponho de informações específicas sobre os fatos objeto da ação penal n° 98.64705-8, não tendo assim condições de colaborar com o esclarecimento dos fatos investigados na aludida ação".O MPF, no entanto, considera fundamental o depoimento do presidente. "Com o devido respeito, acredita o MPF que o Excelentíssimo Senhor Presidente da República deve se limitar a atender à decisão judicial e responder, no prazo fixado por Vossa Excelência, aos quesitos formulados pelas partes, possibilitando, dessa forma, o encerramento da instrução criminal", informa o pedido. Oito perguntas foram formuladas a Fernando Henrique. Todas elas têm por base uma entrevista concedida pelo presidente a uma revista semanal, na qual afirma que, de acordo com as investigações do governo, o grampo teria sido feito na Telerj.Nova fitaCarlos Kenigsberg, advogado do principal acusado da autoria do grampo, o funcionário licenciado da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) Temílson dos Santos, o Telmo, divulgou esta semana o conteúdo de uma nova fita. O cassete contém a gravação de uma conversa telefônica entre o ex-policial federal Célio Areas da Rocha, principal testemunha do processo e Nelsino Drozczak da Silva, morto há duas semanas vítima de um ataque cardíaco, aos 44 anos de idade. Silva, que fazia parte da comunidade de informação, chegou a ser ouvido no inquérito que apurou o grampo.Na fita, Silva cobra de Rocha o fato de ele ser a principal testemunha do caso. O ex-policial replica, dizendo que foi "plantado" como suspeito pelo próprio governo. "A fita deixa claro que Telmo foi usado em uma armação política cujo objetivo era esconder os verdadeiros culpados do grampo", avaliou Kenigsberg. Na análise de Arthur Gueiros, o diálogo não acrescenta nada às investigações. "Não temos nenhuma intenção de crucificar o Telmo, mas a fita não apresenta nada de novo", afirmou Gueiros.

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