MP investigará subprocurador que conversou com bicheiro

O procurador-geral da República, Claudio Lemos Fonteles, vai pedir nesta quarta-feira ao corregedor do Ministério Público Federal, Wagner Gonçalves, que abra investigação contra o subprocurador-geral da República, José Roberto Santoro. Uma gravação divulgada na noite desta terça-feira pela TV Globo mostrou Santoro negociando um perdão judicial para que o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, entregasse a fita onde o ex-assessor da Casa Civil Waldomiro Diniz pede propina. "O fato, a meu juízo, é extremamente grave. Tem os indicativos claros de violação do princípio do promotor natural", afirmou Fonteles.Na conversa, feita na madrugada do dia 12 de fevereiro (Santoro diz que foi no dia 8) dentro da Procuradoria Geral da República, o procurador tenta convencer Cachoeira a entregar a gravação. Ele alega que, pelo horário, poderiam ser flagrado por Fonteles. "Daqui a pouco o procurador-geral vai dizer assim: p...você está perseguindo o governo que me nomeou. Está querendo ferrar o assessor do Zé Dirceu (ministro da Casa Civil)?", afirma Santoro, na gravação, referindo-se a uma eventual reação de Fonteles.Cachoeira resiste e, como alternativa, sugere que a fita seja confiscada numa batida da Polícia Federal. Santoro insiste que o próprio empresário lhe entregue a cópia e comenta: "A Polícia Federal vai bater lá. A primeira pessoa que vai ter acesso a essa fita é o Lacerda (diretor-geral da PF, Paulo Lacerda). O segundo é o ministro da Justiça (Márcio Thomaz Bastos). O terceiro é o Zé Dirceu. E o quarto, o presidente (Lula)". Mais adiante, Santoro prossegue o diálogo, ainda sobre Fonteles: "Ele vai chegar aqui e vai dizer: o sacana do Santoro resolveu acabar com o governo do PT e arrumou um jornalista, juntaram-se com um bicheiro e resolveram na calada da noite tomar um depoimento".Fonteles, que depois do escândalo de Waldomiro disse que Santoro deveria lhe comunicar a existência da fita, afirmou hoje que o subprocurador tinha independência para tomar atitudes, mas condenou o que disse ser uma falha funcional. "Eu vejo nisso uma falta explícita de lealdade para com a chefia. E todo servidor público, atue onde atuar, deve ter um dever inicial que se chama o dever de lealdade", afirmou.Após a reportagem da TV, Santoro disse que tem autonomia funcional. "Nosso ato foi uma pressão para Cachoeira entregar a fita. Em nenhum momento disse que iria atacar o governo", afirmou, ressaltando que a reunião com o empresário durou oito horas, mas que apenas apareceram 20 minutos de gravação.

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