EFE/ EPA/ Madoka Ikegami
EFE/ EPA/ Madoka Ikegami

Caso Marielle: MP do Rio diz que porteiro mentiu ao citar Bolsonaro em depoimento

Áudios mostram que funcionário não ligou para casa do presidente no dia em que a vereadora Marielle Franco foi morta

Redação, O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2019 | 16h47
Atualizado 31 de outubro de 2019 | 19h21

RIO – A promotora Simone Sibilio, do Ministério Público do Rio de Janeiro, afirmou nesta terça-feira, 30, que o porteiro do condomínio onde o presidente Jair Bolsonaro tem uma casa deu informação falsa ao envolvê-lo com um dos acusados de matar a vereadora Marielle Franco (PSOL) e o motorista Anderson Gomes.

A citação provou forte reação de Bolsonaro, que durante viagem ao Oriente Médio usou as redes sociais para rebater a acusação e anunciar a intervenção do ministro da Justiça, Sérgio Moro. Provocada pelo ministro, a Procuradoria-Geral da República (PGR) abriu inquérito para apurar se houve “tentativa de envolvimento indevido” do nome de Bolsonaro. No pedido, Moro fala em “falso testemunho ou denunciação caluniosa”.

Segundo reportagem exibida na terça-feira pelo Jornal Nacional, da TV Globo, o empregado afirmou em dois depoimentos à Polícia Civil que, às 17h10 de 14 de março de 2018 (horas antes do crime), um homem chamado Elcio (que seria Elcio Queiroz, um dos acusados) chegou ao condomínio dirigindo um Renault Logan prata e afirmou que iria à casa 58, que pertence a Bolsonaro.

O porteiro sustenta que, ao interfonar para a casa, recebeu do “seu Jair” permissão para a entrada do carro no local. O veículo, porém, se dirigiu à casa 65, onde morava Ronnie Lessa  – também preso, sob a acusação de ter feito os disparos contra a vereadora e o motorista.

Segundo o MP, embora a planilha de controle de entradas e saídas preenchida pelo porteiro faça menção à casa de Bolsonaro, o cruzamento de gravações do condomínio mostrou que o contato feito pela portaria foi com a casa 65. A voz do homem que atendeu o interfone foi identificada pelos peritos como sendo a de Lessa, a partir de uma comparação com registros feitos em depoimentos à Polícia Civil do Rio. 

Além disso, informação da Câmara dá conta de que, no mesmo dia do assassinato, o então deputado federal Bolsonaro estava em Brasília.

“(O porteiro) mentiu. Pode ser por vários motivos. E esses motivos serão apurados. O fato é que as ligações comprovam que quem autorizou foi Ronnie Lessa”,  disse a promotora, que integra o Grupo de Atuação Especial no Combate ao Crime Organizado (Gaeco). “Se ele esqueceu, se ele mentiu, qualquer coisa pode ter acontecido. Ele pode esclarecer. Simples assim.” 

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Ainda na terça-feira, Bolsonaro fez uma transmissão ao vivo pelas redes sociais para rebater o porteiro e acusar o governador do Rio, Wilson Witzel (PSC)– que tem feito críticas ao governo – de ter vazado o inquérito sobre a morte de Marielle e Anderson. Na transmissão, feita durante a madrugada na Arábia Saudita, Bolsonaro aparece visivelmente nervoso.

Nesta quarta-feira, ele voltou a dizer que Witzel agiu em conluio com delegados da Polícia Civil para envolvê-lo no caso. “Não sei quem é o porteiro. Eu não tive acesso (ao processo) como a Globo teve, como o Witzel teve”, disse Bolsonaro a jornalistas na saída do hotel onde está hospedado, em Riad, ainda na Arábia Saudita. “No meu entender, o porteiro está sendo usado pelo delegado da Polícia Civil, que segue ordem do senhor Witzel, governador.” 

O presidente disse ter sido advertido pelo próprio Witzel sobre o depoimento do porteiro, em evento no Rio no início do mês. “Ele (Witzel) chegou perto de mim e falou o seguinte: ‘O processo está no Supremo (Tribunal Federal)’. Eu falei: ‘Que processo?’. ‘O processo está no Supremo?’. ‘Que processo?’. ‘Ah, o processo da Marielle’. ‘O que eu tenho a ver com o caso da Marielle?’. ‘Não, o porteiro citou o teu nome’. Ou seja, Witzel sabia do processo que estava em segredo de Justiça.”

Procurado, o governador negou ter vazado qualquer informação e disse que as declarações de Bolsonaro foram feitas “num momento talvez de descontrole emocional”. “Se está no Supremo, pode ter vazado ali dentro, em qualquer outro órgão. Tem de ser investigado pela Polícia Federal.” 

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Segundo o MP do Rio, apesar de as declaraçãos do porteiro conterem, em tese, alegações falsas, os depoimentos foram enviados ao STF no dia 10 de outubro, junto com as planilhas e os áudios. A simples menção a Bolsonaro, detentor de foro privilegiado, obrigou a remessa do caso para Corte superior. Em entrevista ao Estado, o procurador-geral da República, Augusto Aras, confirmou ter recebido do Supremo uma notificação sobre a citação ao nome do presidente, mas não viu elementos suficientes e mandou arquivá-la.

 “Nos elementos informativos que o procurador-geral de Justiça do Rio de Janeiro encaminhou ao Supremo, que, por sua vez, encaminhou à PGR, não há nada que vincule o presidente a qualquer evento. Não há nada. A minha assessoria ouviu todos os áudios e não há nenhuma participação do presidente ou de indício da voz do presidente”, afirmou ele. “O Supremo mandou à Procuradoria, que mandou arquivar.”

 

O vereador Carlos Bolsonaro (PSC) usou as redes sociais para exibir um vídeo com imagens de computador contendo supostos arquivos de áudio das conversas entre a portaria e as casas do condomínio no Rio. Um dos registros mostra que às 17h13 o homem identificado como Elcio pede para ir à casa 65, de Lessa. Não há no horário ligação para a residência de Bolsonaro. “Vocês podem ver que nem antes nem depois houve tentativa de contato com a casa de Jair Bolsonaro”, disse ele. /CAIO SARTORI, MARIANA DURÃO, JULIA LINDNER e RENATO ONOFRE

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