MP da Suíça investiga operadores financeiros de ex-diretores da Petrobrás e da Odebrecht

Terceira fase de investigação dos mais de 60 processos criminais mira nos intermediários no país europeu; procuradoria suíça já congeloumais de US$ 1,1 bilhão nos bancos

Jamil Chade, corresponde, O Estado de S.Paulo

06 de outubro de 2017 | 16h23

GENEBRA – O Ministério Público da Suíça iniciou uma terceira fase do processo que começou em 2014 investigando escândalos de corrupção envolvendo ex-diretores da Petrobrás, da Odebrecht e políticos brasileiros. O inquérito, que acumula mais de 60 casos criminais, agora investiga os intermediários financeiros dessas operações no país europeu.

“Na série de investigações relacionadas com a Petrobrás e a Odebrecht, o objetivo desde o começo foi estabelecer os fatos, primeiro analisando os fluxos financeiros e respondendo a vários pedidos de cooperação legal por parte das autoridades brasileiras”, indicou o Ministério Público da Confederação Suíça em um e-mail.

+ 'Rota do dinheiro' de Nuzman entra no radar dos investigadores suíços

+ Suíça vai cooperar para congelar ativos de Nuzman

“Numa fase inicial, a análise se concentrou nos alvos da corrupção e, numa segunda fase, nos corruptores”, explicou o MP em Berna. “Diante da magnitude do caso, a análise ainda não foi concluída”, disse a procuradoria. No total, mais de US$ 1,1 bilhão estão congelados nos bancos suíços. Mil contas teriam sido descobertas ainda relacionadas diretamente com a Operação Lava Jato.

Apesar de esse processo não ter sido concluído em Berna, as investigações já levaram os suíços a entrar numa nova etapa. “Diante dos resultados obtidos e da documentação a sua disposição, o Ministério Público da Confederação examinará, no que passou a ser chamado de terceira fase, a questão da abertura de procedimentos penais contra intermediários financeiros na Suíça”, indicou Berna.

Um dos focos da nova fase é Bernardo Freyburghaus. Em maio, o Ministério Público brasileiro transferiu para a Suíça o caso do operador suíço-brasileiro. Ainda em 2014, ele foi identificado como o intermediário de depósitos para ex-diretores da Petrobras. À medida que a investigação avançou, seu nome também apareceu nos documentos apreendidos da Odebrecht, em Genebra.

No Brasil, ele foi acusado pelo Ministério Público Federal por crimes de lavagem de dinheiro entre 18 de dezembro de 2006 e 6 de junho de 2014. Segundo a denúncia, ele era ‘operador financeiro responsável por intermediar o pagamento de propinas no exterior para a Odebrecht, abrindo contas offshore’ em nome de ex-dirigentes da Petrobrás Paulo Roberto Costa (Abastecimento), Renato de Souza Duque (Serviços) e Pedro José Barusco Filho (ex-gerente de Engenharia).

Em agosto de 2016, os investigadores suíços solicitaram do Brasil “a transmissão de documentos para a instrução do procedimento penal”. Com o suspeito vivendo na Suíça e sem um tratado de extradição, a opção do MP brasileiro foi a de transferir o caso para Berna, o que levou os procuradores suíços a abrir uma investigação.

Segundo a força-tarefa da Lava Jato, “as chances de êxito processual são maiores na Suíça, pois o acusado (Bernardo Freiburghaus) detêm nacionalidade suíça, não podendo ser extraditado ao Brasil’.

Na única declaração à imprensa desde o início do caso, o operador disse ao Estado que não fez nada de errado ou diferente do que fazem os bancos em Genebra. “Se eu for preso, aquele prédio inteiro teria de ser preso”, disse Freiburghaus, apontando para uma sede de um grande banco internacional.

Investigadores ironizam e apontam que Freiburghaus poderia ter razão. Por isso mesmo, uma nova fase de investigações foi iniciada. Pessoas envolvidas diretamente com os casos na Suíça confirmaram ao Estado que tal caminho de fato está sob análise e que o processo contra Freiburghaus representa o que seria uma “terceira fase” de uma enquete que já dura três anos em Berna.

Relações - Nesta semana, a publicação suíça La Cité revelou que, de fato, essa terceira fase do processo no MP já é uma realidade e que ocorre em total silêncio. De acordo com a reportagem, uma das relações de Freiburghaus era com Heitor Duarte, um dos gerentes do banco PKB. Duarte, segundo o Estado apurou, chegou a ter um entendimento com a Odebrecht para usar o sistema confidencial de trocas de mensagens da construtora e criado para organizar o pagamento de propinas.

Por quatro anos, a Odebrecht operou quatro empresas offshore no PKB: GOLAC, SMITH &NASH, DRUMILAN e SHERKSON. Mas foi apenas depois da deflagração da Operação Lava Jato no Brasil que o banco inseriu a mão o nome da empresa Odebrecht como controladora das contas. O gesto foi interpretado por investigadores como uma tentativa de evitar problemas com a Justiça, caso se descobrisse o papel do gerente.

Mas Duarte, segundo a delação premiada do ex-executivo da Odebrecht, Fernando Miggliaccio, também ficava com uma parcela do dinheiro que transitava pelo banco.

Segundo reportagem do La Cité, Freiburghaus se reuniu com Duarte no dia 16 de outubro de 2012. No encontro, operador pediu que o gerente do banco fizesse uma transação de US$ 2,3 milhões entre contas em nome de offshores e que eram de controle de um ex-diretor da Petrobras.  A investigação também mostrou que o dinheiro de propinas entre a Odebrecht e os ex-diretores da Petrobras usaram, de forma importante, o PKB. Só Paulo Roberto Costa teria recebido de uma conta no banco seis transferências para uma outra conta na Suíça sob seu controle.

O Estado apurou que o banco PKB já demitiu o gerente e indicou que medidas legais foram tomadas contra ele.  Agora, o banco insiste que o caso relatado pela Odebrecht não é uma prática generalizada dentro da instituição.  “Um empregado violou regras internas”, afirmou o departamento de imprensa do banco. Para o PKB, o caso “não é institucionalizado como parte do depoimento da pessoa sob investigação sugere”. Já Freiburghaus não foi encontrado pela reportagem.

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.