Daniel Teixeira/AE
Daniel Teixeira/AE

Movimento NASRUAS se fortalece de olho na marcha de 2012

Depois de realizar 1º Congresso, grupo se mobiliza para padronizar bandeiras anticorrupção entre movimentos

Isadora Peron, de O Estado de S.Paulo

14 de dezembro de 2011 | 16h33

No feriado de Sete de Setembro, diversos grupos saíram às ruas para protestar contra a corrupção. Entre eles, estava o NASRUAS, responsável por organizar as manifestações em São Paulo. Hoje, pouco mais de três meses depois, o grupo não apenas se fortaleceu – tem representantes em mais de 53 cidades brasileiras e reúne cerca de 50 mil apoiadores no Facebook – como faz planos para o futuro: no dia 7 de setembro do ano que vem, quando os protestos anticorrupção completarão um ano, uma das organizadoras da marcha diz que quer realizar “a maior manifestação que o Brasil já viu”.

 

Carla Zambelli é uma paulista de 31 anos. Por causa de um filho que acaba de fazer quatro anos, diz que começou a se preocupar com o futuro do País. Na sexta-feira, dia 9 de dezembro, o movimento realizou o 1.º Congresso Contra Corrupção. O objetivo era definir quais as bandeiras serão defendidas  pelo NASRUAS e provavelmente também pelas dezenas de outros movimentos anticorrupção que surgiram nos últimos meses. Em entrevista ao 'Estado', Carla contou os planos para o ano que vem.

Qual o objetivo 1.º Congresso Contra Corrupção?

A intenção foi pegar todas as propostas de combate à corrupção que estão circulando pela internet e dar embasamento teórico a elas. Dizer qual vale ou não a pena, quais as prioridades a se discutir, ou seja, chegar a um consenso do que realmente pode combater a corrupção. Hoje, nós (os diferentes movimentos de combate à corrupção) somos um grupo de 100 mil a 150 mil pessoas espalhados por todo o Brasil. Então, como o nosso movimento é sério e pode realmente mudar o País, nós quisemos dar embasamento teórico, técnico e constitucional às propostas. A gente não quer ferir a Constituição, mas queremos mudar o País para melhor, atacando o cerne da corrupção, que é a impunidade. A gente acredita que se conseguirmos diminuir a impunidade as pessoas vão passar a ter mais medo de roubar, porque elas serão pegas, presas e terão de devolver o dinheiro.

E o que foi elencado como prioridade?

Nós apoiamos o Ficha Limpa, mas ela não será uma prioridade, porque essa questão já foi bastante debatida, agora temos que esperar pela decisão do STF. A nossa prioridade para o começo do ano que vem vai ser conseguir aprovar o fim do voto secreto no Congresso, pelo menos em votações que o povo tenha interesse de saber o voto de cada parlamentar. Nós vamos lutar por essa bandeira, porque é algo que pode ser concretizado a curto prazo e nós precisamos de uma conquista para poder comemorar e animar as pessoas.

Alguma outra?

A priorização dos julgamentos de corrupção. Tanto é que a nossa intenção é tentar criar um projeto de lei que obrigue o Judiciário a priorizar o julgamento de crimes de corrupção, de forma que a gente não tenha casos como mensalão que dure seis anos e que até agora não tenha uma solução. Nós queremos que a sentença crimes de corrupção saia em, no máximo, um ou dois anos.

Uma das principais críticas aos movimentos de combate a corrupção era justamente a falta de bandeiras claras. Você acha que essa iniciativa vem ao encontro disso?

Acho que sim. A gente não quer ser mais ser chamado "indignados-ignorantes". Por outro lado, eu acho que não temos a obrigação de saber detalhes da Constituição. Por isso considero injustas essas críticas contra a nossa ignorância, que sempre admitimos, mas entendo que elas não são descabíveis, que têm fundamento.

Recentemente os diferentes grupos anticorrupção manifestaram a intenção de se unir. Como está esse processo?

Estamos caminhando para a unificação das propostas e das iniciativas. Isso não quer dizer que iremos nos tornar um só grupo, porque somos muito diferentes uns dos outros. Outra coisa super importante é os diversos grupos conseguirem coordenarem as datas, locais e horários das manifestações. O nosso sonho é que no dia 7 de setembro de 2012, não todas as cidades brasileiras, mas pelo menos todas as capitais, tenham um manifesto marcado para o mesmo horário, para um local predeterminado. E nesse dia, quando vai completar um ano das primeiras marchas, nós queremos que aconteça a maior manifestação que o Brasil já viu. Maior que qualquer Parada Gay ou Marcha para Jesus. Esse é o principal objetivo da nossa união. Nós queremos poder buscar isso junto com os outros movimentos e fazer valer o nosso lema: ou param a roubalheira, ou paramos o Brasil. E no dia 7 de setembro de 2012 nós vamos parar o Brasil.

Já há outras manifestações programadas para o ano que vem?

Sim. Um segundo congresso está marcado para 17 de março. Antes disso, em 25 de janeiro, no dia do aniversário da cidade de São Paulo, vamos fazer uma nova manifestação só na capital, porque vai ser feriado. E também vamos marcar outros eventos durante o ano para chegar no dia 7 de setembro fortalecidos e com propostas mais claras.

Quando vocês fizeram a primeira passeata, em 7 de setembro, imaginaram que haveria esse desdobramento?

Eu acreditava no movimento. Quando criamos o NASRUAS, pensamos que ia bombar em São Paulo. Em Mairiporã, que é a minha cidade, 200 pessoas tinham confirmado presença no Facebook. No fim, conseguimos reunir umas 40 pessoas que a gente arrebanhou na rua mesmo. Naquele dia eu fiquei muito decepcionada, porque achei que a gente ia conseguir fazer um baita barulho, tínhamos até carro de som. Mas, mesmo decepcionada, tinha certeza que não iria parar.

A baixa participação das pessoas nas manifestações também é uma crítica feita constantemente aos movimentos. Por que você acha que é tão difícil transferir a adesão do mundo virtual para o mundo real?

Olha, vou ser sincera, eu acho que o brasileiro gosta de pão e circo. Então, se a gente conseguir trazer um artista famoso ou um jogador de futebol para o movimento, aí eu acho que o brasileiro vai tirar a bunda do sofá e vai para as ruas. Também acho que não conseguimos mais adesão porque temos cerca de 6% de desemprego, a gente não tem tanto problema econômico, não vive uma ditadura, então o brasileiro, no geral, está feliz. Não há um motivo grande e visível de indignação.

Vocês pensam em institucionalizar o movimento, em transformá-lo numa ONG?

A gente tem pensado nisso, porque algumas empresas privadas estão querendo nos ajudar. Mas até agora não sentimos essa necessidade. Então, eu acho que se a solução para continuar viabilizando esse movimento for criar uma ONG para a gente poder receber doações - e é claro que todas elas serão tornadas públicas, porque nós precisamos dar o exemplo - a gente vai criar sim. Porque só quem colocou dinheiro no movimento até agora foi a gente mesmo. Eu já gastei mais de R$ 3,5 mil desde setembro. Mas eu não posso mais tirar dinheiro do meu bolso para fazer uma coisa que é de interesse público.

Quais as conquistas já alcançadas através das manifestações?

Acho que o mais bacana é que o NASRUAS é um movimento que está espalhado por 52 cidades e que está tocando, de alguma forma, pelo menos 50 mil pessoas. Isso sem falar em todos os outros movimentos que existem. Acredito que esse seja o início do despertar da consciência política. Isso já aconteceu para muita gente e está virando um efeito dominó que só tende a crescer. Mas, se você me perguntar se nós tivemos alguma conquista palpável, se conseguimos aprovar alguma proposta, eu vou te responder que não, não tivemos. Mas já caíram sete ministros, e isso é bom, porque mostra que nós estamos conseguindo incomodar. Essa é uma vitória que é também dos movimentos anticorrupção.

Como você avalia a faxina da presidente Dilma Rousseff?

Demitir ministro é importante, mas não é só o ministro que é corrupto. Por que as pessoas que estavam abaixo deles não caíram? Nós precisamos de medidas rápidas e práticas por parte do governo que realmente deem resultados. Por isso consideramos que, na verdade, não existiu faxina na corrupção do governo. Eles serviram uma pizza ao povo, com 7 pedaços, cada um com o nome de um ministro. A mudança precisa ser profunda, precisa entrar na engrenagem do governo. Foi muito superficial. Demitir os ministros foi o mínimo que a presidente Dilma poderia ter feito.

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