Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Mourão quer aproximar Planalto de Biden com ajuda de Kamala

Nos bastidores do governo, e até entre diplomatas, o vice de Bolsonaro tem sido visto como um dos nomes mais pragmáticos do núcleo político-militar

Felipe Frazão, O Estado de S.Paulo

14 de novembro de 2020 | 16h07

BRASÍLIA - O vice-presidente Hamilton Mourão já definiu uma estratégia para se aproximar de Kamala Harris, a vice-presidente eleita dos Estados Unidos. O primeiro contato será por uma cordialidade. A intenção é dar congratulações a Harris pela vitória ao lado de Joe Biden na disputa pela Casa Branca.

Nos bastidores do governo, e até entre diplomatas, Mourão tem sido visto como um dos nomes mais pragmáticos do núcleo político-militar, capaz de abrir canal de diálogo com a equipe de Biden. Mesmo assim, o general não quer puxar agora nova frente de embate com o presidente Jair Bolsonaro.

Por causa de outras divergências públicas, Mourão virou alvo de queixas dos filhos de Bolsonaro e de aliados mais radicais do presidente, que chegaram a falar até mesmo em “conspiração” no governo.  O vice jura lealdade, mas sabe que não é visto nem mesmo como candidato a companheiro de chapa de Bolsonaro para o projeto de reeleição, em 2022.

Nos últimos dias, o presidente se irritou com Mourão e o desautorizou. Na lista de motivos para mais um atrito entre os dois estavam duas propostas reveladas pelo Estadão, discutidas pelo Conselho Nacional da Amazônia Legal, comandado pelo vice. A primeira delas prevê o controle de 100% das atividades de organizações não-governamentais (ONGs) na região e a segunda mostra um plano para expropriar propriedades rurais e urbanas que tenham cometido crime ambiental.

Bolsonaro disse que a “propriedade privada é sagrada”, chamou a ideia de “delírio” e ameaçou demitir o responsável, “a não ser que essa pessoa seja indemissível”, uma indireta a Mourão. Não foi só: o presidente afirmou à emissora de TV CNN que não está discutindo com o vice a situação dos EUA, nem qualquer outro assunto.

A interlocutores mais próximos, Mourão repetiu que não quer atropelar Bolsonaro, embora já tenha dito que, como “pessoa física”, já reconhece a vitória de Biden no duelo contra Donald Trump pela Casa Branca. Diante dessa intrincada situação política,  assessores afirmam que Mourão não deve se manifestar em nome do governo antes que Bolsonaro admita o democrata Biden como vencedor na disputa levada à Suprema Corte pelo republicano Trump. 

No gatilho

Mesmo assim, o vice deixou uma mensagem pronta, engatilhada para soltar no Twitter, dando os parabéns a Kamala Harris. Mourão pretende publicar o tuíte tão logo o Planalto felicite Biden. Esse momento, porém, ainda é uma incógnita porque Bolsonaro decidiu se manter em silêncio até que o imbróglio tenha chegado ao fim.

Em conversas reservadas, diplomatas avaliam que, com a demora em se manifestar, mesmo diante de novos resultados confirmados a favor de Biden, Bolsonaro acaba deixando o Brasil cada vez mais isolado no plano internacional, ao lado de México e Rússia. Até os chineses, sempre calculistas, reconheceram o triunfo de Biden e Kamala.

Mourão, por sua vez, continua distante de Trump. Ele nunca aderiu à torcida de Bolsonaro pelo republicano. E, quando questionado, repete o discurso diplomático de que a relação entre os países independe de governos e será de Estado para Estado, “havendo simpatia ou não”.

“Durona”

Ex-procuradora-geral da Califórnia, a senadora Kamala Harris é vista por conselheiros de Mourão como uma mulher “durona”. Em agosto do ano passado, por exemplo, no auge dos incêndios florestais, ela expressou o repúdio da campanha de Biden ao que ocorria na Amazônia. Harris culpou Bolsonaro pelas queimadas, afirmou que a política do governo brasileiro era “catastrófica” e  permissiva com garimpeiros e madeireiros que destruíam a terra e defendeu a suspensão, por parte dos EUA, das negociações para acordos comerciais com o Brasil.

É justamente nesse ponto que há uma brecha para Mourão entrar no circuito. A Amazônia pode ser um “gancho” para introduzir a conversa com Kamala, já que o vice preside o Conselho da Amazônia Legal, principal vetor de políticas, operações imediatas contra crimes ambientais e planejamento do governo para a região. Mourão tem feito convites a autoridades estrangeiras para conhecer a selva brasileira e uma visita de Estado é tida como iniciativa capaz de azeitar a relação.

Outro tema que interessa aos democratas é a Venezuela. Mourão conhece a realidade de Caracas, onde serviu como adido do Exército e da Defesa. Foi com análises sobre a situação do governo chavista de Nicolás Maduro que ganhou o respeito de Mike Pence, vice-presidente e companheiro de chapa de Trump. Eles conversaram sobre Maduro em abril do ano passado, em Washington, e iniciaram uma relação cordial.

Na época, Mourão também passou no Senado americano e abordou o tema Venezuela com os dois partidos, por cerca de 30 minutos. Entre os interlocutores estavam os senadores democratas Tom Udall e Bob Menendez.

Nesta mesma missão de política externa, o general firmou a imagem de voz moderada no governo. Mourão deixou impressões positivas na capital americana ao dar palestra exibindo domínio da língua inglesa, invejado no Planalto. Nos anos 1960, ele estudou em Washington, enquanto o pai, o general de Exército Antônio Hamilton Mourão, servia na Junta Interamericana de Defesa.

O vice também se preparou para um contato pós-eleitoral com Pence. Queria que o vice de Trump e sua mulher visitassem o Brasil e o Rio de Janeiro, qualquer que fosse o resultado nas urnas. Um assessor de Pence sugeriu deixar o contato telefônico para depois do último dia 12, um sinal de como a Casa Branca já previa a apuração prolongada.

Tutela

Desde o início do governo, Mourão nunca deixou de se inserir na política externa, em certos momentos com mais protagonismo, como no auge da crise com a Venezuela, com fechamento da fronteira, em fevereiro de 2019. Na ocasião, época, houve distúrbios com Brasil e Colômbia durante tentativa de entrada de carretas com alimentos e remédios destinados à Venezuela. Mourão foi a autoridade de mais alto nível do Brasil a viajar para um encontro em Bogotá, quando a ala militar do governo tutelava os passos do chanceler Ernesto Araújo.

Mourão também foi nomeado como representante do Palácio do Planalto na Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação (Cosban), por meio da qual viajou a Pequim, na tentativa de superar o mal estar entre os dois países. Numa deferência, foi recebido pelo presidente chinês Xi Jinping. Em 2021, receberá a comitiva chinesa no Brasil.

Mesmo depois de perder prestígio com Bolsonaro, o vice continuou a ser consultado por diplomatas estrangeiros sobre os rumos do governo. Recentemente, como presidente do Conselho da Amazônia, ele arregimentou uma comitiva de ministros e diplomatas de dez países para passar três dias entre sobrevoos e visitas na região. Conseguiu levar europeus, como alemães, britânicos, espanhóis, portugueses e franceses.

O mau desempenho ambiental faz com que Bolsonaro sofra resistências no continente para fazer avançar o acordo comercial Mercosul-União Europeia. Estrategicamente, ficaram de fora da viagem à selva amazônica os embaixadores da China, Yang Wanming, e dos EUA, Todd Chapman.

As ações de Mourão para abrir canais com Biden não passam, nesse momento, por uma coordenação fina com o gabinete de Bolsonaro. A linha da política externa bolsonarista é, na prática, conduzida por um triunvirato formado pelo chanceler Ernesto Araújo, o assessor internacional Filipe Martins - bem relacionado com trumpistas - e o deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP). Filho “03” de Bolsonaro, Eduardo desejava ser embaixador do Brasil nos EUA. O deputado preside a Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional da Câmara.

Apesar da aliança com Trump, o trio deve tentar conduzir a aproximação com Biden por intermédio do embaixador em Washington Nestor Forster, diplomata de carreira elogiado entre seus pares no Itamaraty. Em várias ocasiões, Forster demonstrou abertura à pressão ideológica dos bolsonaristas e já prepara o terreno para uma conversa com a campanha de Biden.

Pelas formalidades do cerimonial, um vice se dirige a outro vice. Em tese, portanto, Biden deveria se relacionar com Bolsonaro, ambos no mesmo nível político. Mas o próprio presidente democrata eleito desafiava essa regra.

Quando era vice de Barack Obama, Biden assumiu a liderança do relacionamento Casa Branca-Planalto no segundo mandato do americano e foi enviado algumas vezes ao Brasil. Relacionava-se não só com o então vice Michel Temer como ganhou a simpatia de Dilma Rousseff, a presidente que sofreu impeachment, em 2016.

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