Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Mourão diz que assessor criou 'ruído desnecessário' ao tratar de impeachment de Bolsonaro

Assessor parlamentar Ricardo Roesch Morato Filho foi demitido ontem do cargo, após diálogo em que sugeria impeachment de Bolsonaro ser publicado pela imprensa

Emilly Behnke, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2021 | 11h51

BRASÍLIA – O vice-presidente Hamilton Mourão afirmou nesta sexta-feira, 29, que seu assessor parlamentar Ricardo Roesch Morato Filho, demitido ontem do cargo, criou um "ruído desnecessário" ao sugerir haver articulações no Congresso para o impeachment do presidente Jair Bolsonaro. O vice exonerou o auxiliar após o site O Antagonista mostrar mensagens trocadas entre Morato Filho e o chefe de gabinete de um deputado.

“Uma troca de mensagens imprudente; gera um ruído totalmente desnecessário no momento que a gente está vivendo. A partir daí a pessoa que tinha um cargo de confiança perde a confiança para exercer esse cargo”, afirmou Mourão em conversa com jornalistas na chegada ao Palácio do Planalto.

O vice afirmou ser contra um processo de impeachment e preza pelo "princípio da lealdade":  “Foi uma situação lamentável. Em primeiro lugar, porque não concordo com o processo de impeachment, não apoio isso aí, como já falei várias vezes. Segundo lugar, não é a forma como eu trabalho”.

Nas mensagens reveladas ontem, o agora ex-chefe de assessoria parlamentar de Mourão convida o chefe de gabinete de um deputado não identificado para um café e menciona conversas com "os assessores de deputados mais próximos". "É bom sempre estarmos preparados", escreveu Morato Filho, segundo a mensagem divulgada pelo site O Antagonista.

O chefe de gabinete pergunta por qual motivo a preparação seria necessária. Primeiro, a pessoa identificada como Ricardo Filho alega que não seria “nada demais, articulação normal mesmo”. Em seguida, introduz um assunto e sugere a perda de força do general Augusto Heleno, chefe do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) da Presidência. “Sabe que Mourão dividiu a ala militar”, escreveu. “Antes Heleno dominava agora estão divididos – Capitão está errando muito na pandemia - Gal. Mourão é mais preparado e político você sabe disso."

Ontem, em nota, a Vice-Presidência repudiou a "inverdade de toda a narrativa" e negou que alguém da equipe de Mourão teria comportamento como o revelado pelo site O Antagonista. Entretanto, a demissão do assessor foi decidida pelo vice, ainda ontem, e confirmada em edição extra do Diário Oficial da União (DOU).

Ao jornal O Globo, Mourão contou que o funcionário negou ter disparado as mensagens e alegou que seu celular foi hackeado. O vice, porém, não acreditou na versão.

Questionado nesta sexta, Mourão disse não ter conversado sobre o assunto com Bolsonaro por se tratar de uma "questão interna" de sua equipe. Ele declarou ainda que o assunto está "resolvido e encerrado": "Eu prezo por demais o princípio da lealdade. A lealdade é uma estrada de mão dupla, ela é minha com meus subordinados, vamos falar assim, e deles comigo. No momento que isso é rompido, se rompe um ele e não dá mais para trabalhar junto".

Em entrevista ao Estadão, no último dia 15, Mourão rechaçou a tese de impeachment. “Deixa o cara governar, pô!”, afirmou ele. “Não vejo hoje que haja condição de prosperar qualquer pedido de impeachment contra o presidente Bolsonaro.”

Troca de ministro

Mourão também evitou polêmica com Bolsonaro após dizer que o ministro Ernesto Araújo, das Relações Exteriores, pode ser demitido após a eleição no Congresso, marcada para 1º de fevereiro.  Ontem, Bolsonaro rechaçou a possibilidade e ainda chamou seu vice de "palpiteiro".

“Não fiquem especulando porque isso só traz inquietações internas e leva incertezas para a população. O que nós menos precisamos é de palpiteiros na formação do tocante à formação do meu ministério”, disse o presidente, na quinta-feira, para apoiadores na chegada ao Palácio da Alvorada. 

Questionado sobre a fala de Bolsonaro, Mourão não quis tratar do assunto: "Não vou comentar. Deixa para lá".

Na terça-feira, 26, em entrevista à CNN Brasil, Mourão reclamou da falta de diálogo com Bolsonaro. “Não há conversas seguidas entre nós. As conversas são bem esporádicas”, disse o vice, na ocasião. “Faz falta até para eu entender em determinados momentos o que eu preciso fazer.”

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