João Paulo Carvalho/Estadão
João Paulo Carvalho/Estadão

Motorista da Uber oferece até chocolate importado para passageiro que não votar em Russomanno

Candidato foi o único entre os principais concorrentes a se posicionar contra o aplicativo como transporte de passageiros

João Paulo Carvalho, O Estado de S.Paulo

02 de outubro de 2016 | 12h55

SÃO PAULO - A popularidade do candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, não é das melhores, pelo menos entre os motoristas da Uber. Na manhã deste domingo, 2, dia da votação, teve até "piloto" oferendo chocolate da marca importada Lindt para "convencer" passageiro indeciso a não votar em Russomanno.

"Peguei dois clientes hoje por volta das 8h30. Eles não sabiam em quem votar. Expliquei que ele queria acabar com a Uber. Ofereci um chocolatinho a mais para que o Russomanno sequer fosse cogitado nas urnas. Haddad (PT), Marta (PMDB), João Doria (PSDB) e até mesmo a Erundina (PSOL): não me importa quem vai vencer. Todos, de alguma forma, se mostraram favoráveis à Uber, menos o doutor Russomanno, que quer acabar com tudo", afirmou um motorista da Uber que pediu ao Estado para não ser identificado. "O passageiro vota em quem ele bem entende. O tratamento é o mesmo para todos, mas se o candidato dele não for o Russomanno, ele leva, sim, um chocolatinho a mais para casa. Dá até para escolher o sabor", brincou o rapaz de 23 anos.

Na região do Tatuapé, zona leste da cidade, todos os motoristas ouvidos pela reportagem descartaram votar em Russomanno. "Ele se diz defensor do consumidor e quer acabar com a Uber. Não faz o menor sentido. A gente está trabalhando, prestando serviços, cuidando das nossas famílias. Com tanto desemprego que tem por aí, sério que ele vai gerar mais? Não podemos dar esse gostinho a ele", questionou o motorista André Luiz Caldana, 64, que em 2012 votou em Celso Russomanno para a Prefeitura de São Paulo.

O motorista Wanderley Morales, 60, que trabalha com o aplicativo há 30 dias, também rejeita Celso Russomanno e afirma que vai votar em João Doria (PSDB). "Quero dar uma chance para o setor privado. Precisamos de um gestor. Um gestor tem mais condições de aprender política do que um político de aprender gestão. Russomanno é reacionário. Soluções não são tão fáceis quanto ele diz. O posicionamento dele sobre a Uber foi determinante para a escolha do meu voto", conclui.

Luiz Carlos Alves Ferreira, 29 anos, é motorista da Uber há 7 meses e diz que nunca ouviu um único passageiro favorável a Celso Russomanno. "Ele se diz o defensor do consumidor e quer tirar algo que foi legalizado e deu certo na cidade. Vou votar no Haddad mesmo".

Procurada pela reportagem do Estado, a Uber divulgou a seguinte nota: "Os motoristas parceiros são totalmente independentes e não têm qualquer subordinação à Uber. Vale lembrar que um ponto importante é o sistema de  "avaliação mútua" após cada viagem. Ou seja, o motorista parceiro avalia o usuário e o usuário avalia o motorista parceiro, sem qualquer interferência da Uber. Além de ser anônima, é ela que garante que a plataforma mantenha-se saudável tanto para motoristas parceiros quanto para usuários. O usuário que não concordar com qualquer comportamento do motorista parceiro pode usar essa ferramenta para dar seu feedback. Os motoristas precisam ter média de 4,6 (em uma escala de 1 a 5 estrelas) para continuar utilizando a plataforma."

Polêmica. O candidato do PRB à Prefeitura de São Paulo, Celso Russomanno, foi o único entre os principais concorrentes a se posicionar contra o aplicativo Uber como transporte de passageiros. No dia 1.º de setembro, em entrevista à rádio CBN, Russomanno disse que o aplicativo funciona “na ilegalidade”.

O candidato argumentou que o serviço, que funciona respaldado em um decreto municipal assinado pelo prefeito e candidato à reeleição, Fernando Haddad (PT), está em desacordo com o Código Brasileiro de Trânsito. “Para o transporte individual, coletivo ou de cargas, os veículos têm de transitar com placas vermelhas”, disse ele, lembrando que os carros Uber transitam na cidade com placas particulares. 

Para Russomanno, a Prefeitura discute judicialmente a prestação de serviço do Uber e não a legalidade do transporte à luz do CBT. Segundo ele, enquanto não for dada uma concessão pública, o Uber estará na ilegalidade. “Não vou permitir que isso aconteça”, disse.

Dois dias depois, Russomanno voltou atrás e afirmou que não iria banir o aplicativo, mas regulamentá-lo. "Não vou banir o Uber, e sim regulamentar. O serviço está sendo multado nos EUA, China e Europa. No meu governo, o Uber vai respeitar a lei. Vou entrar com uma ação contra o Uber para proteger os direitos dos motoristas do serviço", disse durante o debate promovido pela RedeTV, UOL, Veja e Facebook em 3 de setembro.

Outros candidatos. No dia 31 de agosto, durante uma caminhada no Itaim Paulista, zona leste da cidade, Haddad voltou a defender a regulamentação dos aplicativos de transporte. “A melhor maneira de o taxista se proteger é se aliar à Prefeitura.” 

O empresário João Doria, candidato do PSDB, considera que o atual modelo pode ser o “ponto de partida” para regular o mercado. “Tem lugar para táxi e Uber, desde que regulamentados e com igualdade de competição”, disse. A candidata do PMDB à Prefeitura, Marta Suplicy, defende o diálogo entre os dois lados para se chegar a uma situação “que seja boa para todos”.

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