Motoboys aceleram protestos e agravam caos em São Paulo

Velozes e furiosos, mas essenciais.Esses são os motoboys, que pilotam acelerados para fazerentregas na terceira maior metrópole do mundo, e que vêmagravando o caos nas ruas, em protestos contra as más condiçõesdo trabalho que lhes rende, em média, 600 reais ao mês. Acostumados a se organizar espontaneamente, o que às vezestermina em brigas e roubos, centenas dos cerca de 160 milmotoboys da cidade pararam o trânsito duas vezes na semanapassada para protestar contra os altos impostos que pagam econtra um pacote de medidas da Prefeitura paulistana. Eles se preparam para voltar às ruas, na terça-feira, epedir, além de menos impostos, tolerância da polícia com seutrabalho e justiça pela morte de um colega, baleado por umpromotor público no começo do mês. "Esse é um momento histórico para a nossa profissão, quepode deixar de ser um monte de gente apenas para se tornar umacategoria de verdade", disse à Reuters o presidente doSindicato dos Trabalhadores Motociclistas da Cidade de SãoPaulo (Sindimoto), Aldemir Martins de Freitas. A irritação dos motoboys é focada nos planos do governo deelevar o seguro obrigatório de 180 para 240 reais, na expulsãodeles da via expressa da Marginal Pinheiros, uma das principaisda capital, e na exigência de que eles usem equipamentos desegurança escassos no mercado paulistano. Tudo em nome da segurança, em uma profissão que em 2006matou cerca de 380 motoboys e feriu 9 mil deles, de acordo coma Associação Brasileira de Motociclistas. O sindicato dacategoria afirma que em 2007, assim como nos últimos anos ummotoboy perdeu a vida na capital paulista a cada dia. Para barrar as mudanças propostas pela Prefeitura, osmotoboys enfrentam, além da antipatia de muitos, a poucarepresentatividade do Sindimoto, que abriga apenas 12 mil doscerca de 650 mil motociclistas da cidade. Os motoboys têm evitado a associação sindical e contam como misto de comoção e irritação das manifestações para terem asexigências atendidas --até agora conseguiram apenas as faixasde trânsito exclusivas nas avenidas 23 de Maio e Sumaré. PÉ NA TÁBUA A paralisação do trânsito na semana passada não servirápara negociar, disse o prefeito Gilberto Kassab (DEM), com quemos sindicalistas esperam se reunir nesta semana. "Essa situação tensa só esconde o problema real, que é afalta de educação do motociclista, de regulamentação daprofissão, de investimento na malha viária", disse o presidentedo Sindimoto. Para satisfazer os clientes e fazer mais viagens, osmotoqueiros se aventuram na velocidade e, não raro, entre umasúbita mudança de faixa e outra, encontram portas de carros eretrovisores pelo caminho, gerando a fúria dos motoristas. "Cansei de chutarem meu carro enquanto eles mudam de faixa.Quando discuti com um, outros cinco apareceram para me ameaçar.Não tem como ter simpatia por eles, porque a gente sempre achaque são bandidos. Pode não ser, mas a suspeita sempre existe",disse à Reuters o empresário Eurico Ferreira, 48. Benjamin de Souza, 26, é motoboy e recusa o rótulo dado porFerreira. Pai de duas meninas, trabalha na profissão há doisanos e acredita que os motoristas não lhes abrem espaço paramotos nas ruas nem prestam socorro quando os atingem. "Motorista não ajuda nada. Nós estamos expostos, e eles temum monte de ferro ao redor. Não tem como sermos o maiorproblema do trânsito. O problema é qual? Cair e morrer?", diz. "A idéia dos protestos é mostrar que nós também existimos,somos importantes. A sociedade nega apoio porque não querdividir espaço com motoqueiro, que é pobre e não pode encostarem carrão. Protestar também não pode. Aí fica difícil." QUESTÃO DE IMAGEM Dono de uma empresa de entregas, Paulo Cézar de AndradePrado, 35, trabalha com cinco pessoas e acha justificável opreconceito contra os motoboys. "Mais da metade dos funcionários que tive me lesou, sumiudinheiro. Tem muita gente desqualificada, sem alternativa deemprego. Os poucos bons pagam por isso", disse. "Não dá para melhorar a imagem quando você corre o risco deencostar seu carro em um deles e mais de 20 aparecerem para teagredir. A maioria não é registrada, as empresas não têmpolítica para a profissão e isso atrai muita gente disposta,inclusive, a transportar carga ilegal", comentou. Cientes da má fama, os motoqueiros criaram há três anos umfestival para melhorar a imagem, com direito a eleição de missmotoboy. Nem sempre a vencedora sabe guiar uma moto. A próximaedição, a partir de 24 de janeiro, terá um tom mais político,diz Luis Augusto de Alcântara Machado, diretor do festival. "Os maus elementos são os que se destacam entre os motoboyse o festival serve para dar um reconhecimento positivo paraeles." E alerta: "Por trás tem muito empresário que trabalha emtrês turnos porque sabe que vai ter motoboy para ajudar". (Reportagem de Maurício Savarese)

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