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Eliane Cantanhêde
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Morto-vivo vivíssimo

O deputado Eduardo Cunha está politicamente morto, mas ainda pode fazer estragos gigantescos antes de virar réu no Supremo, enfrentar um processo por quebra de decoro na Câmara, enterrar a presidência da Câmara, incinerar o próprio mandato e, eventualmente, dividir uma cela com ex-dirigentes do PT e donos das maiores empreiteiras. É, pois, um morto-vivo. E vivíssimo!

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

11 Outubro 2015 | 03h00

Exatamente por isso, pelo poder de fogo do morto, pela sua capacidade de assombrar o mandato de Dilma Rousseff, que tanto o Palácio do Planalto quanto a oposição, particularmente o PSDB, titubeiam e se contorcem em dúvidas quanto ao que fazer com ele - e quando.

Cunha se meteu num labirinto sem saída. Corre, à toa, da denúncia da Procuradoria-Geral da República pela suspeita de propinas na compra de navios-sonda pela Petrobrás; da confirmação, pelas autoridades suíças, de que tem quatro contas secretas de mais de R$ 20 milhões; de um pedido de investigação apresentado por 29 deputados de 6 partidos; e do sério risco de ser cassado por quebra de decoro parlamentar, após ter mentido numa CPI.

Se Cunha é o mais radical adversário de Dilma Rousseff e se ele tem a cadeira e a caneta que podem materializar o pedido de impeachment, o natural seria que o Planalto estivesse louco para derrubá-lo já e que a oposição estivesse fazendo das tripas coração para segurá-lo no cargo. Certo? Nem tanto. Há controvérsias.

Do ponto de vista de Dilma e do Planalto: Cunha tem o poder formal e os instrumentos para tocar o impeachment, mas não tem condições éticas e morais de presidir um processo dessa magnitude contra Dilma, aliás, contra ninguém. Que valor teria para a cidadania, para o mundo e para a história um impeachment comandado por Eduardo Cunha?

Já do ponto de vista da oposição: se foi cômodo usufruir dos poderes e das benesses de Cunha, que na presidência da Câmara deu comissões, vagas em CPIs e destaque para os tucanos, deixou de ser conveniente articular impeachment liderado por um camarada atolado em denúncias gravíssimas. Como reagiriam as principais entidades a um impeachment com Cunha no centro do picadeiro? E não seria dar de mão beijada uma potente munição aos movimentos sociais pró-Dilma, ou melhor, pró-PT?

Eduardo Cunha, portanto, não é só um cadáver político, mas o típico bode na sala. O governo sonha tirá-lo logo da presidência da Câmara na expectativa de encerrar o pesadelo e amanhecer num outro dia. Mas... talvez não seja uma boa ideia, porque ninguém pode garantir quem será o substituto. O atual líder peemedebista, Leonardo Picciani, que não lidera nem a própria bancada? Ou um parlamentar de peso e de estatura moral capaz de mobilizar e aglutinar o Congresso pelo afastamento de Dilma?

E a oposição quer tirar o bode na sala, mas teme que ele arraste junto a carroça do impeachment. Se é difícil com Cunha lá, mesmo após TSE, TCU, Hélio Bicudo e Miguel Reale Júnior, já imaginaram sem Cunha? Aí é que pode empacar mesmo, tanto quanto a economia está. No cálculo (errado) de setores da oposição, é agora ou nunca.

A única certeza, nessa imensidão de incertezas, é que as declarações de Cunha descartando a renúncia não valem um tostão furado, como não valeram nos casos de Antonio Carlos Magalhães, Jader Barbalho e Renan Calheiros quando caíram da presidência do Senado por muito menos. Ele terá de renunciar à presidência para tentar salvar o mandato. Inutilmente, diga-se. A situação de Cunha não está se tornando insustentável, ela já é totalmente insustentável.

 

PS - no auge do impeachment de Fernando Collor, o seu tesoureiro, PC Farias, reclamava dos excessos da primeira-dama Rosane Collor: “Madame anda gastando muito...” Os tempos mudam, mas as madames continuam gastando demais. Como a mulher de Cunha, jornalista Cláudia Cruz, conseguiu torrar US$ 1 milhão em cartões de crédito, academias e cursos?!

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