Morto aos 29 anos, Frei Tito virou mártir para os companheiros

Dominicano foi torturado pela ditadura e mesmo livre sofria com os 'fantasmas do passado'

José Maria Mayrink , O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2014 | 00h01

Vizinhos do convento de L'Arbresle, nos arredores de Lyon, na França, acharam o corpo de Frei Tito de Alencar Lima dependurado numa árvore no dia 10 de agosto de 1974. O frade, então com 29 anos, enforcou-se sob a copa de um álamo, após quatro anos de exílio, de intermináveis sofrimentos que o levaram à loucura. Seus irmãos na Ordem dos Pregadores, dos padres dominicanos, vigiavam seus passos, mas não conseguiram impedir que esse cearense banido de sua pátria em 1971, depois de 14 meses de tortura nos porões da ditadura, viesse a morrer enforcado.  

Na solidão do convento, Frei Tito era atormentado por fantasmas do passado, pois acreditava que o delegado Sérgio Fleury voltaria a qualquer momento para levá-lo à "sucursal do inferno", como diziam seus carcereiros nas celas do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), Presídio Tiradentes e Operação Bandeirantes (Oban). De nada adiantou o socorro dos psiquiatras, em vão os frades tentaram confortá-lo. Abraçado a um violão, o dominicano ouvia a voz de Milton Nascimento e cantarolava versos de Chico Buarque. Morria de saudade do Brasil. 

"...Onde estavam o guardião, o ecônomo, o porteiro, a fraternidade onde estava, quando saíste, ó desgraçado moço de minha pátria, ao encontro desta árvore?... Quando andavas em círculos, a alma dividida, o que fazia, santa e pecadora, a nossa Mãe Igreja?..." Esses versos da poeta mineira Adélia Prado, do livro Terra de Santa Cruz, buscam ainda uma resposta, ou explicação, para o suicídio de Frei Tito. Ele se matou, mas virou mártir, para seus amigos e companheiros.  O suicídio é considerado um pecado pela Igreja, mas a teologia ensina que nem sempre os suicidas devem ser condenados.

"Distúrbios psíquicos graves, a angústia ou ou o medo grave da provação, do sofrimento ou da tortura podem diminuir a responsabilidade do suicida", afirma o Catecismo da Igreja Católica, aprovado pelo papa São João Paulo II em 1992. "O enforcamento sob a copa de uma árvore foi o caminho que Frei Tito encontrou para se livrar do delegado Fleury, eu havia se apoderado de seu corpo", disse o cardeal d. Paulo Evaristo Arns, em agosto de 1999, quando celebrou a missa de comemoração dos 25 anos da morte do dominicano.  Frei Tito de Alencar Lima nasceu em 14 de setembro de 1945 em Fortaleza. Foi dirigente da Juventude Estudantil Católica (JEC) e entrou na ordem dos dominicanos em 1965. Estudava Filosofia na Universidade de São Paulo (USP), quando foi preso, na madrugada de 3 para 4 de novembro de 1969, pela equipe do delegado Fleury.

Dos dominicanos presos, foi ele quem mais sofreu. A repressão queria saber se, além de apoiar o esquema de Marighella, da Aliança Libertadora Nacional (ALN), ele tinha alugado um sítio em Ibiúna (SP), para o congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE). "Deram-lhe pancadas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca para receber a 'hóstia sagrada' - descargas elétricas na boca", afirma Frei Betto, com base num relato que Frei Tito escreveu na prisão. Incluído pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) na lista dos presos políticos trocados pelo embaixador da Suíça, sequestrado pelo movimento, em dezembro de 1970, Frei Tito foi banido e levado em janeiro de 1971 para o Chile, de onde seguiu para a Itália e França. Quando ele morreu, em agosto de 1974, a repressão continuava a prender, torturar e assassinar suspeitos e militantes de esquerda no Brasil. 

Mais conteúdo sobre:
Frei Tito, Ditadura

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.