Mortes por aids param de diminuir no RJ e SP

Dados das Secretarias de Saúde do Rio de Janeiro e de São Paulo mostram que, pela primeira vez, desde que o coquetel antiaids começou a ser distribuído gratuitamente pelo Ministério da Saúde, em 1996, a mortalidade causada pela doença - que chegou a cair pela metade entre 1996 e 1997, no País - pára de descer e mostra tendência de crescimento nos dois Estados. Os números do Rio e de São Paulo (que concentram cerca de 50% dos casos da aids no Brasil) podem estar refletindo uma tendência nacional - principalmente porque os sistemas de coleta de óbitos dos dois Estados são melhores e mais rápidos - e indicar uma virada da epidemia no Brasil. Mas o Ministério da Saúde afirma que as estatísticas do País inteiro ainda não indicam tendência nacional. "Provavelmente na região Norte e Nordeste esse fenômeno ainda não está acontecendo porque lá a epidemia é mais jovem. Já no Sul isso pode ser verdade. O que nós precisamos agora é de um novo avanço, porque a terapia atual é boa, mas limitada", explica Marco Antônio Vitória, assessor da Coordenação Nacional de Aids do ministério.No Estado de São Paulo, a mortalidade caiu 24% entre 1996 e 1997. Mas, desde 1998, há uma tendência para estabilização e até crescimento. Entre 1997 e 2000, os decréscimos foram de 17%, 7,3% e 1,8%, e a previsão é que, entre o ano passado e este, não haja mais queda, e sim elevação. "Existe uma tendência à estabilização ou, quem sabe, crescimento", afirma Emily Ruiz, epidemiologista do Centro de Referência e Tratamento de Aids do Estado de São Paulo. Na capital paulista, onde a coleta de dados é ainda mais rápida e há dados mais recentes, o total de óbitos relacionados com a doença caiu de 2.772 para 1.940 entre 1996 e 1997. Continuou caindo em 1998, ficou estável entre 1999 e 2000 e tende a subir em 2001. Até a metade deste ano, já foram registradas 704 óbitos e a expectativa é de que, no ano inteiro, o número duplique, superando os 1.300 do ano passado. "Parece que a euforia inicial causada por grandes quedas na mortalidade passou. Agora, temos que entender melhor o que está levando à mudança na curva", explica Fábio Mesquita, coordenador do programa de aids da Secretaria de Saúde da cidade de São Paulo.Na cidade do Rio já há crescimento nas mortes. Dados revelam que, pela primeira vez desde 1996, houve aumento da mortalidade, entre 1999 e o ano passado. Passaram de 984 para 1.041, número bem menor do que os 1.889 registrados antes dos remédios, em 1995, mas preocupante porque indica uma reação da aids. "É uma notícia ruim e, de fato, pode mostrar que isso é um problema do País inteiro, mas o que temos que fazer agora é entender melhor esses óbitos", diz a coordenadora do programa de aids do município, Betina Durovni.Preocupados com a tendência, Mesquita e Durovni iniciaram projetos nas duas cidades para apurar as causas das mortes. Em vez de apenas analisar os atestados de óbito, os investigadores vão estudar também os prontuários das vítimas. O estudo poderá auxiliar na formulação de políticas de saúde que ataquem o problema com precisão. "É claro que existe um porcentual de doentes que morre porque a terapia, por melhor que seja, não funciona mais. Mas em vários casos há formas de agir para evitar a morte", diz Durovni.Duas hipóteses são levantadas pelos especialistas para explicar parte do aumento das mortes. A primeira é que, em alguns casos, ele seria alavancado pela associação da aids com a hepatite C, uma combinação que piora a infecção e apressa a morte. Vários casos têm sido notificados em hospitais de São Paulo, segundo Mesquita. E a maioria ocorre em soropositivos usuários de drogas injetáveis - esse tipo de hepatite também é transmitido pelo sangue.A outra explicação não é nova. Desde a metade dos anos 90, a aids deixou de ser uma doença apenas da classe média e começou a avançar na população de baixa renda. E a associação do vírus HIV à pobreza tem efeitos mais letais. Pessoas que não se alimentam direito e que não recebem cuidados têm mais dificuldade em aderir ao tratamento e tomar o coquetel de drogas corretamente. Com isso, essas vítimas da doença ficam mais vulneráveis a infecções oportunistas e morrem mais rápido.

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