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Morte sob a tipuana

São as tipuanas que fazem os bairros mais caros de São Paulo serem diferenciados - para usar expressão tornada notória por um de seus moradores. Não são os prédios pastilhados ou em falso neoclássico, nem as marcas famosas nas vitrines. São as árvores trazidas pela Companhia City para seus famosos bairros-jardim.

José Roberto de Toledo, O Estado de S.Paulo

29 de dezembro de 2014 | 02h02

Mais de 70 anos depois de plantadas, essas árvores exóticas (sua origem é a Bolívia) superaram, na maioria dos exemplares, os 15 metros de altura e formaram copas com mais de 20 metros de diâmetro. Dão sombra às ruas e calçadas, conforto térmico e, acima de tudo, uniformidade visual a um conjunto arquitetônico que varia do feio ao duvidoso, com exceções a confirmar a regra.

O tronco rugoso das tipuanas é o ambiente ideal para o crescimento simbiótico de uma samambaia que mais parece uma grama aérea e que dessa característica extrai seu nome. Assim, a casca das árvores, tornada escura pela fuligem paulistana, recobre-se de verde e ajuda a tornar mais suportável um ambiente onde predominam o preto do asfalto e o cinza das fachadas.

Na primavera, parece nevar amarelo em Higienópolis, Pacaembu, Alto da Lapa e nos Jardins. Pequenas flores cor de gema caipira pontuam as copas das tipuanas como flocos que lá tivessem pousado. E depois caem nas calçadas, formando um tapete amarelado que é insistentemente desfeito a jatos de esguicho - mesmo com seca - por funcionários de condomínios defronte.

A batalha do homem com as árvores se repete no inverno, quando elas perdem as folhas e cobrem o chão de folíolos secos e sementes aladas. Há briga também onde os olhos não veem. Entre suas poderosas raízes e o calçamento ou, mais grave, delas com os responsáveis pela manutenção das tubulações subterrâneas. No ar, a luta é entre os imensos e numerosos galhos contra as empresas donas dos fios de eletricidade, telefone e TV a cabo.

De tempos em tempos surge uma equipe com uma motosserra na mão e um capacete na cabeça. Cortam galhos e troncos meticulosamente, deixando copas em improváveis formas de "V", para desimpedir a passagem da preciosa fiação. Na sarjeta, escorre dos troncos serrados das tipuanas uma seiva viscosa e avermelhada.

Essa é a melhor hipótese. Na pior, cortam os galhos só de um lado. Após podas sucessivas, o tronco pende para a rua e a árvore perde equilíbrio. Chuva e vento fortes um dia a derrubam.

Há décadas as tipuanas vêm valorizando os bairros e a cidade, em troca de nenhum cuidado. Em uma dissertação de doutorado apresentada na USP em 2010, o biólogo Sérgio Brazolin descreveu os principais riscos relacionados à queda de árvores em São Paulo. Após estudar 1.109 exemplares, concluiu que, já naquela época, o estado de 16% delas era de "alerta máximo" - exigindo tratamento imediato contra cupins e uma poda na copa que reequilibrasse a árvore, buscando o seu centro de gravidade.

"No caso das tipuanas, embora seja uma espécie muito resistente, o estado geral era crítico, principalmente devido à deterioração provocada por cupins, fungos e broca da madeira", descreveu o pesquisador. Mas as causas não são apenas naturais. "As tipuanas sofrem com o apodrecimento por fungos provocados por injúrias no tronco em podas inadequadas ou ações de vandalismo".

O alerta foi feito quatro anos antes de um jovem administrador de empresas morrer ao ser atingido, dentro de um táxi, pela queda de uma tipuana, durante um temporal em São Paulo. A tragédia é tão rara que nem é descrita entre as centenas de causas de morte da Classificação Internacional de Doenças.

Mais improvável do que ganhar na loteria, vira, mesmo assim, argumento para a troca das tipuanas por alguma espécie menos frondosa e mais burocrática - que atenda à Prefeitura e às empresas concessionárias de serviços públicos. É assim que a cidade mata, por descaso ou interesse, o que a embeleza.

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