Morte de Covas abate FHC

A morte do governador de São Paulo Mário Covas (PSDB)abateu o presidente Fernando Henrique Cardoso. Informado da morte do amigo às 5h40 damanhã, pelo cirurgião gastroenterologista Raul Cutait, o presidente chorou. "Édifícil acreditar", desabafou Fernando Henrique a um colaborador direto, momentosdepois de conversar com Cutait em um telefone do Palácio da Alvorada.Fernando Henrique deixará Brasília no final da tarde para assistir o velório e,contrariando a orientação da área militar da Presidência, participará do sepultamentode Mário Covas nesta quarta-feira, em Santos. Ele chegou a São Paulo acompanhado por um grupo deministros e políticos do PSDB."Ele está muito abalado", disse um dos ministros que estiveram com o presidente hojepela manhã. "Os dois eram muito amigos", justificou. Segundo o relato deste colaborador, Fernando Henrique chegou ao Planalto com a voz embargada e não conseguiu dissimular seu abatimento."Ele manifestou um sentimento de perda muito grande", confidenciou a fonte. "Quando agente vive batalhas em comum, como a das ´Diretas Já´ e luta contra a ditadura, essascoisas criam um tipo de relação muito próxima", acrescentou, referindo-se à profundaamizade e sintonia entre os dois políticos. "Foi a primeira vez que vi o presidentecom os olhos cheios d´água", contou outra fonte.Colaboradores próximos relatam que, apesar das evidências do agravamento do estado desaúde do Covas, Fernando Henrique se recusava a admitir a hipótese da morte dogovernador de São Paulo. Este comportamento foi presenciado por políticos tucanos queestiveram com Fernando Henrique no Palácio da Alvorada anteontem, em um jantarmarcado para discutir o futuro do PSDB. "Em nenhum momento ele aceitou discutir essahipótese", disse um ministro presente ao encontro.Naquela noite, muitas horas após a equipe médica do Incor ter admitido pela primeiravez que Mário Covas poderia não resistir ao câncer, o presidente recusou-se acomentar com seus correligionários como trataria da morte do amigo. Durante o jantar,ministros e lideranças tucanas chegaram a perguntar-lhe se ele decretaria lutooficial ou não e até mesmo qual seria o futuro do PSDB sem uma de suas principaisvozes. "Ele não respondeu a ninguém, limitou-se a dividir conosco lembranças dasmuitas coisas que fizeram juntos", contou outro dos ministros que estiveram noAlvorada.LutoO presidente decretou luto oficial de sete dias. A decisão foi tomada em umareunião no Palácio do Planalto nas primeiras horas da manhã, da qual participaram oministro-chefe da Casa Civil, Pedro Parente, o secretário-geral da Presidência,Aloysio Nunes Ferreira e o secretário de Comunicação, ministro Andrea Matarazzo. Fernando Henrique alterou o texto do decreto que trata do luto oficial - até entãorestrito a três dias - e pretendia estender o período para oito dias, o que não foipossível por razões legais. O luto de oito dias, explicou um colaborador, só pode serdecretado no caso da morte do próprio presidente da República. Para modificar odecreto do luto oficial, Fernando Henrique alegou os "relevantes serviços prestadosao País".O vice-presidente, Marco Maciel, foi informado da morte de Mário Covas às 6h damanhã, pela área militar do Palácio do Planalto. Ele conversou por telefone com opresidente e cancelou sua agenda. Maciel deveria ter ido ao Rio de Janeiro paraproferir uma palestra. O vice divulgou uma nota oficial de pesar e seguiu para SãoPaulo horas antes de Fernando Henrique. Por questões de segurança, os dois nuncaviajam juntos. AtençãoAmigos há decadas, Fernando Henrique e Mário Covas tinham o hábito deconversar por telefone quase diariamente. Ao longo dos dois anos em que o governadorde São Paulo lutou contra o câncer o costume foi mantido, mesmo durante as viagensque o presidente fez ao exterior.Neste período, Fernando Henrique fez cinco visitas a Covas. As duas primeiras em1998, quando o político tucano sofreu a primeira cirurgia, para a retirada da bexiga.O presidente também esteve com Covas em dezembro de 2000, quando o governador foiinformado do recrudescimento da doença.Ele voltou a São Paulo no início deste ano. Dias após retornar de um giro pela Ásia,Fernando Henrique esteve com Mário Covas no Palácio dos Bandeirantes. Naquelaocasião, o governador já usava cadeira de rodas e dava os primeiros sinais doagravamento de sua saúde. O presidente deixou São Paulo abalado, mas confiante em queo amigo se recuperaria. Voltou a visitá-lo na semana passada, no Incor, mas não puderam conversar. Covas dormia.

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