André Lessa/Estadão - 20/9/2007
André Lessa/Estadão - 20/9/2007

Paulo Egydio Martins: Gestor político e suporte civil da 'abertura'

De perfil administrador, ex-governador de São Paulo tinha 92 anos e comandou o Estado entre 1975 e 1979

Paula Reverbel, O Estado de S.Paulo

12 de fevereiro de 2021 | 14h50
Atualizado 13 de fevereiro de 2021 | 09h41

O ex-governador de São Paulo e ex-ministro Paulo Egydio Martins morreu nesta sexta-feira, aos 92 anos. Paulo Egydio governou o Estado durante o regime militar, entre 1975 e 1979, nomeado pelo então presidente Ernesto Geisel. No período em que ocupou o Palácio dos Bandeirantes, se destacou mais pelo perfil administrador.  Na política, se consolidou como um liberal – e seu êxito foi estimular a reabertura durante a ditadura.

Filiado à Aliança Renovadora Nacional (Arena), partido de sustentação do regime de março de 1964, Paulo Egydio deu suporte civil à chamada política de distensão de Geisel. Nos quatro anos no comando de São Paulo por indicação do então presidente, se tornou homem de confiança no Estado, e se opôs a militares linha-dura. Manteve, desde o começo de sua gestão, relações delicadas com o general Ednardo Dávila Melo, comandante do 2.º Exército, um dos que queriam aprofundar o combate aos que tentavam “subverter” o governo.

“Desculpe incomodá-lo”, afirmou Paulo Egydio a Geisel, por telefone, na noite de 18 de janeiro de 1976. “Morreu outro preso no DOI. Outro enforcamento.” Era uma referência à segunda de duas mortes que representaram o momento mais delicado de seu governo e precipitaram o processo de distensão do regime militar. 

O jornalista Vladimir Herzog e o metalúrgico Manoel Fiel Filho foram assassinados em outubro de 1975 e janeiro de 1976, respectivamente. Na época, Herzog, que havia ajudado a instalar a sucursal do Estadão em Brasília e era diretor de Jornalismo da TV Cultura – emissora do governo paulista –, tinha se dirigido às dependências do DOI-Codi para prestar um depoimento. Pela versão oficial da ditadura, ele tirou a própria vida ao se enforcar na cela. 

A morte teve sérias repercussões, mobilizando a sociedade em repúdio às prisões e assassinatos políticos. A imprensa e o próprio presidente interpretaram o assassinato como um desafio do aparelho de repressão ao projeto de Geisel. No dia 19 de janeiro, após a ligação de Egydio, Ednardo foi exonerado.

“Militares linha-dura não queriam que o Geisel desse continuidade à abertura política que ele estava implementando”, afirmou o ex-governador à Comissão da Verdade, em 2013. “Eles queriam um regime mais forte e violento”, disse.

Trajetória

Paulo Egydio Martins nasceu em 1928, em São Paulo. Conforme relatou em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC), da FGV, teve forte influência do avô paterno, Egydio José Ferreira Martins, engenheiro como ele, e positivista – o que, no Brasil da primeira metade do século 20, significava apreço pelas ideias de “pátria e bem comum”. Da avó paterna, Paulo Egydio disse que lembrava-se dela “cerzindo meias ao final de um dia de trabalho”.

Sobre a avó materna, ainda de acordo com o depoimento, recordava-se dela “saindo à noite para atender os chamados” – ele era parteira dos empregados da Light, em São Paulo. Da mãe, Júlia Machado Martins, e dos colégios marista de Santos e jesuíta do Rio, veio a formação católica do ex-governador.

Paulo Egydio começou a descobrir a política como aluno da Escola de Engenharia da Universidade do Brasil, no Rio: em 1948 foi eleito presidente da União Metropolitana dos Estudantes e, em 1950, integrou a chapa eleita para a diretoria da União Nacional dos Estudantes. Ainda estudante, começou a trabalhar como estagiário na empresa Byington & Companhia. O dono da empresa acabou se tornando seu sogro. Em 1953, dois anos após formar-se em Engenharia, Paulo Egydio se casou com Brasília (Lila) Byington Egydio Martins e se mudou para São Paulo. O casal teve sete filhos.

Ainda no depoimento, Paulo Egydio observou que nascera em meio à ocorrência de fatos mundiais de grande relevância. “O que julgo importante observar é como os acontecimentos mundiais repercutiram e continuam repercutindo o Brasil até hoje e como influenciaram todos os momentos de minha vida”, disse na época. “Com o fim das utopias e o encerramento da minha fase de certezas, de crenças inabaláveis, o sentimento que sobrevém é o de solidão.”

Ainda à frente do governo paulista, Egydio tentou, sem sucesso, fazer com que o prefeito da capital paulista, Olavo Setúbal, fosse escolhido como seu sucessor em São Paulo. Promoveu, em 1978, uma pesquisa plebiscitária com todos os prefeitos arenistas do Estado em que cada um enviou um telegrama ao presidente, general João Batista Figueiredo, com o nome do candidato de sua preferência. No fim das contas, em 1979, Paulo Egydio transmitiu o cargo a Paulo Maluf, escolhido como candidato pelos políticos da Arena paulista, de quem depois virou crítico.

Liberal

No fim do mandato como governador, o paulista chegou a defender a legalização do Partido Comunista e o fim do exílio do secretário-geral da agremiação, Luís Carlos Prestes. Depois, já fora do cargo, passou a dar sucessivas declarações de cunho liberal, como no caso da defesa da proposta de “anistia ampla, geral e irrestrita” defendida pelo partido de oposição à ditadura, o MDB.

Poucos anos depois do retorno do pluripartidarismo no Brasil, Egydio se filiou ao Partido Popular (de Tancredo Neves), do qual foi terceiro-vice-presidente da comissão executiva regional. Saiu, no entanto, antes de a sigla ser incorporada ao então PMDB. Teve uma passagem pelo Partido Democrático Social (PDS) antes de finalmente ingressar, em 1884, no PMDB a pedido de Tancredo, candidato da Aliança Democrática.

Em meados da década de 1980, abandonou a política partidária, para a qual só voltaria em 2006, com a filiação ao PSDB. A partir de então, foi para o setor privado – foi presidente do Banco Finasa S.A. e do Itaucorp S.A., do grupo Itaú. Também foi conselheiro da Câmara de Comércio Brasil-Suíça. 

Paulo Egydio já estava no governo quando a Arena, o partido da ditadura, foi criado. A agremiação passou a existir só em 4 de abril de 1966, três meses depois de o paulista, um engenheiro por formação, assumir o Ministério da Indústria e do Comércio (MIC) no governo do presidente Humberto Castelo Branco. O Ato Institucional n.º 2, que extinguiu os partidos políticos e instaurou o bipartidarismo, havia sido publicado no fim do ano anterior. No MIC, ajudou a sustentar a política do ministro do Planejamento, Roberto Campos, uma das linhas mestras da linha econômica adotada pelo regime criado para combater a inflação. 

A notícia do falecimento foi transmitida pelo governador de São Paulo, João Doria (PSDB). A causa da morte não foi informada.

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