Reprodução UnBTV
Reprodução UnBTV

Morre o jornalista Carlos Chagas aos 79 anos

Profissional que trabalhou no 'Estado' foi diagnosticado com aneurisma na aorta

Ligia Formenti, O Estado de S.Paulo

26 de abril de 2017 | 18h02

BRASÍLIA - Morreu na manhã desta quarta-feira, 26, em Brasília o jornalista, advogado e professor Carlos Chagas, aos 79 anos. Ele passou mal no início da manhã, foi levado ao hospital onde foi diagnosticado um aneurisma na aorta. Foi internado na UTI, mas não resistiu. 

Sua filha, a ex-ministra-chefe da Secretaria de Comunicação durante o governo Dilma Rousseff, Helena Chagas, afirmou que ele esteve lúcido até os últimos instantes. “Ele estava conversando comigo, com minha irmã, com minha mãe. Dizendo que queria pagar o imposto de renda, que o cheque tal estava sobre a mesa...”

Nascido na cidade mineira de Três Pontes, Chagas começou como repórter de O Globo, em 1959. Entre janeiro de 1972 e agosto de 1988 foi diretor da sucursal de Brasília de O Estado de S. Paulo. Chefe da redação em Brasília do jornal Valor Econômico, Rosângela Bittar trabalhou com Chagas nesse período. “Ele era uma das pessoas mais cordiais que conheci no exercício da função de diretor”, contou. 

Para Rosângela, Chagas exerceu um papel fundamental na modernização da cobertura do governo. “Ele inovou. Procurou sempre orientar a equipe sobre como decifrar Brasília e traduzir as informações para os leitores de O Estado de S. Paulo. As primeiras matérias sobre denúncia, sobre como investigar o poder público foram feitas a partir da orientação dele”, disse. 

O jornalista Fernando César Mesquita, chefe da redação de Brasília de O Estado de S. Paulo no período em que Chagas comandava a sucursal resumiu: “Ele era o nosso porto seguro. Era uma época difícil, com censura. O jornal publicava receitas de bolo e trechos de poemas de Camões para indicar os trechos de reportagens censuradas por militares”, lembrou. Para Mesquita, Chagas se destacava pela seriedade e cooperação com repórteres.

A exemplo de Rosângela, Mesquita lembra do papel relevante de Chagas na coordenação de reportagens investigativas. “No início da minha carreira tinha a incumbência de ler o Diário Oficial. Dali extraía reportagens sobre mordomias. E ninguém podia censurar, porque havia sido publicado na imprensa oficial.”

Ao longo da carreira, Chagas trabalhou na TV Manchete, Rede TV e SBT. Despediu-se da TV ano passado, quando saiu da CNT. “Ele dizia que ia fazer 80 anos, decidiu parar. Mas continuou sempre muito ativo.” Helena contou que ele mantinha a rotina de escrever todos os dias. Seus textos eram publicados na internet e em jornais do interior do País.

O velório será nesta quinta-feira, 27, em Brasília, a partir das 10 horas. O enterro está previsto para as 16h30. 

Carreira. Chagas era casado com a psicóloga Emila havia 57 anos. Além de Helena, o casal teve Cláudia, que trabalha no Ministério Público. “Tive sorte de tê-lo como pai. Ele foi uma grande referência para mim e para muitos jornalistas”, disse Helena. 

Ela lembrou da relevância da atuação do pai na luta pela liberdade de imprensa durante o período da ditadura. O jornalista era também formado em Direito, foi promotor por alguns anos. “Mas chegou num ponto da carreira em que ele teve de escolher. Àquela altura, ele já estava apaixonado pelo jornalismo e acabou deixando o Ministério Público.” E concluiu: “Era uma paixão pelo jornalismo que ele passou para mim e para várias gerações de jornalistas, colegas de trabalho e alunos. Por anos ele foi também professor da UnB.”

O fotógrafo Orlando Brito descreve Chagas como um dos grandes ícones do jornalismo brasileiro. “Ele era tão brilhante que, no início de carreira, ainda novo, foi chamado para trabalhar como porta-voz do então presidente Costa e Silva. Ele se tornou um dos grandes defensores da liberdade de imprensa, na época em que a censura se instalou no Brasil”, lembrou Brito. 

Em nota oficial, o presidente Michel Temer lamentou a morte do jornalista. “Deixa como principal legado o compromisso com a verdade e a sua responsabilidade no trato da notícia. E sai de cena em um momento em que essas suas características, como homem e como profissional, são cada vez mais necessárias ao País e ao mundo”, escreveu o presidente na nota divulgada pelo Planalto.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.