Morre mais um bebê índio caiová por desnutrição

A subnutrição matou mais uma criança guarani caiová da Reserva Indígena de Dourados, a 220 quilômetros de Campo Grande. É a terceira ocorrência do gênero registrada este ano nas aldeias Jaguapirú e Bororó, onde residem as famílias mais pobres da reserva. No dia 10 de fevereiro, um índio de dois anos morreu em conseqüência da fome, a exemplo de outro menino com nove meses de idade, que morreu no dia 24 de janeiro. No domingo à tarde, morreu Cleison Benites Lopes, de 10 meses, vítima de desnutrição grave. Segundo o atestado de óbito assinado pelo médico Raul Grigoleti, ele morreu devido a "complicações provenientes de uma desnutrição grave". O menor estava doente em casa, e no domingo, depois de passar pelo Posto de Saúde da reserva, morreu. Segundo nota distribuída pela Funasa nesta segunda-feira, a família da vítima recebe três cestas básicas de alimentos por mês. A afirmação é desmentida categoricamente pela mãe do menor, Salete Benites, que há um mês não recebe alimentos. "Quando as cestas chegam não dá para alimentar todos, somos em 14 pessoas". O pai da criança, Brasil Lopes, afirmou que a situação fica pior com a falta de água potável na aldeia. Acusações dos índios e respostas da Funasa se repetem quando as mortes por falta de alimentação acontecem. Na mesma nota, a instituição ressalta que entrega 3 mil cestas básicas por mês nas aldeias em Dourados, além de sopas com compostos nutritivos que ajudam no reforço alimentar das crianças. São distribuídos para os índios filtros de água e hipoclorito para fazer a purificação da água. "Existem cinco poços de água, dois deles sendo perfurados, e ligações domiciliares para mais de mil famílias nas duas aldeias." ´Problema da Funai´ Pelo menos 80% dos 800 servidores da Funasa cuidam da saúde indígena e distribuição de cestas de alimentos na Reserva de Dourados, onde vivem cerca 11 mil índios em quase 3 mil hectares, região sul do Estado. O programa estadual Segurança Alimentar completava a distribuição de alimentos nas aldeias, porém o governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli (PMDB), suspendeu as entregas, inclusive para os sem-terra acampados alegando que "índios é problema da Funai e sem-terra do Incra". "Já mandei uma proposta à União, a retomada dos programas depende da União. Se o governo federal não aceitar, vamos ter o nosso programa social a partir de outubro". Puccinelli propõe que todos os programas sociais mantidos pelo governo anterior sejam substituídos por um único de distribuição de R$ 100 por mês por família. Serão R$ 13 milhões por mês, dos quais a União pagaria R$ 7 milhões e as prefeituras juntas R$ 1,5 milhão. Superlotação Há quase dois anos, foi formada uma comissão multidisciplinar para resolver os problemas existentes na Reserva Indígena de Dourados. O principal deles, que é a falta de espaço para os 11 mil habitantes do local, seria solucionado com a ampliação ou transferência da reserva para uma área maior. Funai, Incra, Ministério Público Federal, governo do Estado e prefeituras fazem parte da comissão. Segundo o superintendente regional do Incra, Luís Carlos Bonelli, nada foi feito até agora. "Até hoje ninguém me procurou." Bonelli lembra que o Incra está resolvendo velhos conflitos entre índios e colonos, com sucesso. No ano passado, conseguiu solucionar questão surgida no governo de Getúlio Vargas, quando foi criada a primeira reforma agrária do Brasil, no município de Dourados. Na ocasião, foi montado um assentamento de sem-terra dentro da Aldeia Indígena Panambizinho, em Dourados. O Incra comprou a Fazenda Terra do Boi, no município de Juti, vizinho de Dourados, e transferiu as 52 famílias de colonos para a nova área, além de 80 famílias de sem-terra. O mesmo processo está em andamento no município de Paranhos, extremo sul do MS, na divisa com o Paraguai. Em 2000, mais de mil caiovás expulsaram sob ameaça de morte 40 famílias de colonos, que foram assentadas pelo governo federal, dentro da Aldeia Potrero Guassú. Eles serão assentados na Fazenda Beira Rio, a 470 quilômetros de Campo Grande, comprada pelo Incra, além de 111 de sem-terra. "Está faltando apenas a liberação dos TDAs (Título da Dívida Agrária), por parte de Tesouro Nacional, para pagar a terra bruta aos proprietários. As benfeitorias da fazenda são pagas à vista".

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