Celio Jr./Estadão
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Morre Leônidas Pires Gonçalves, o primeiro ministro do Exército pós-ditadura

Militar, que estava hospitalizado, será velado com honras no sábado pela manhã, no salão nobre do Palácio Duque de Caxias, no Rio

Tânia Monteiro, João Villaverde, Vinicius Neder e Antonio Pita, O Estado de S. Paulo

04 de junho de 2015 | 19h54

O ex-ministro do Exército, general Leônidas Pires Gonçalves, faleceu hoje no Rio, aos 94 anos. Ele sofreu complicações após uma queda no início da semana. Pires Gonçalves, que estava hospitalizado, será velado com honras militares no sábado pela manhã, no salão nobre do Palácio Duque de Caxias, no Rio, e terá o corpo cremado à tarde.

O general foi o primeiro ministro do Exército após o fim da ditadura militar, tendo sido escolhido pessoalmente pelo presidente eleito Tancredo Neves, ainda em janeiro de 1985. Gonçalves teve atuação decisiva dois meses depois, quando Tancredo adoeceu na véspera da posse, em 14 de março, e não pôde assumir.

Segundo o general relatou em diversas entrevistas, ele atuou para que o vice-presidente eleito, José Sarney (PMDB), assumisse até que Tancredo se recuperasse - o que nunca aconteceu. Tancredo faleceu em 21 de abril, Sarney tornou-se presidente e Gonçalves continuou como ministro do Exército durante todos os cinco anos do primeiro governo civil desde 1964, cujo mandato terminaria somente em março de 1990, com a posse de Fernando Collor, primeiro presidente eleito com voto direto desde a deposição de João Goulart.

No livro "Richa, o político", Pires Gonçalves relatou em entrevista aos autores, os jornalistas Hélio Teixeira e Rose Arruda, que estava num jantar na Academia de Tênis, em Brasília, em 14 de março, quando foi chamado às pressas ao Hospital de Base, onde Tancredo fora internado.

Lá chegando, encontrou-se com os principais líderes políticos da época, como o próprio Sarney; José Fragelli, presidente do Senado; Marco Maciel, que depois seria vice-presidente de Fernando Henrique Cardoso; Francisco Dornelles, sobrinho de Tancredo e atual vice-governador do Rio; e Antonio Carlos Magalhães.

Segundo o relato de Pires Gonçalves, os políticos debatiam sobre quem tomaria posse no lugar de Tancredo. "A discussão era a seguinte: quem toma posse amanhã? Aí eu disse: senhores, eu não sei qual é a dúvida, mas de acordo com a Constituição, artigos 76 e 77, quem toma posse é o vice-presidente, o Sarney", conta o general no livro.

Para o ex-presidente Sarney, Pires Gonçalves foi "o último dos grandes chefes militares que tomaram parte nos acontecimentos centrais da História do Brasil". "Sua participação na transição democrática foi decisiva e a ele devemos grande parte da extinção do militarismo - a agregação do poder militar ao poder político", escreveu Sarney, em nota publicada em seu site hoje.

Apesar da atuação para garantir a transição ao governo civil em 1985, Pires Gonçalves defendeu o regime de exceção que vigorou por 21 anos entre 1964 e 1985 até o fim de sua vida. Em 2012, foi um dos militares da reserva que veio a público manifestar-se contra a instalação da Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo na época, o general classificou a CNV de "moeda falsa, que só tem um lado". "Embora o discurso seja de que não haverá punição com esta Comissão da Verdade, já estão promovendo a maior punição ao Exército, que está tendo o seu conceito abalado injustamente", disse Pires Gonçalves.

Sobre a presidente Dilma Rousseff, recém-empossada e ainda com a popularidade em alta, o general disse que deveria ter "a modéstia" de deixar de olhar o passado para olhar "para o futuro do País".

Para o deputado Jair Bolsonaro (PP-RJ), militar da reserva e também defensor do regime de exceção, Pires Gonçalves "não permitiu que alguém tripudiasse as Forças Armadas ao longo do governo Sarney". "As coisas mudaram depois da saída dele. O governo FHC foi uma lástima para as Forças Armadas e com o PT passou a ser uma tragédia", disse.

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