Reprodução/Cebrap
Reprodução/Cebrap

Morre Leôncio Martins Rodrigues, referência na sociologia do trabalho, aos 87

Professor da USP e da Unicamp, sociólogo deixou obra sobre relações de trabalho na indústria, movimento sindical e partidos

O Estado de S.Paulo

03 de maio de 2021 | 17h58

O sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, referência no estudo do trabalho e do sindicalismo brasileiro, morreu nesta segunda-feira, 3, aos 87 anos. Ele foi professor de sociologia e ciência política na Universidade de São Paulo (USP) e na Universidade de Campinas (Unicamp), e deixou uma extensa obra acadêmica sobre relações de trabalho na indústria, o papel do movimento sindical na política e a formação de partidos. Estava internado para tratamento da doença de Parkinson. 

Martins Rodrigues nasceu em São Paulo em 1934, e se formou em ciências sociais aos 28 anos Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Foi um dos primeiros estudiosos da sociologia industrial, já em sua dissertação de mestrado, em 1964. Com a orientação do sociólogo Florestan Fernandes, defendeu em 1967 o doutorado “Atitudes Operárias na Indústria Automobilística”. Dois anos depois, participou da fundação do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). 

“Liberal por convicção, tinha um compromisso ético que o transformava, por vezes, em crítico incômodo de verdades estabelecidas, como se esperava de um intelectual genuíno”, destacou o Cebrap, em nota. “Na época mais dura do regime autoritário, exercitou sua solidariedade generosa e incondicional escondendo colegas perseguidos, ajudando outros de diversas formas.”

Quando era aluno de colegial, ele conheceu Ruth e Fernando Henrique Cardoso, que à época eram professores do Colégio Estadual Fernão Dias Paes enquanto faziam a graduação na USP. Tornariam-se colegas na vida acadêmica. Com FHC, Martins Rodrigues traduziria o livro O Espírito das Leis, de Montesquieu, anos mais tarde. 

“Eu me lembro que a Ruth me falava para eu ler o Gilberto Freyre, autores que eu gostava. Eu gostava muito daquilo, mas logo larguei tudo e fui fazer militância”, disse o professor em outubro de 2008, em entrevista ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (FGV-Cpdoc). Quando decidiu abandonar a militância política e construir uma carreira na academia, a opção pelas ciências sociais também passou por uma conversa com Ruth, sua ex-professora. 

Na USP a partir da década de 1960, sua trajetória o levou lentamente da sociologia do trabalho para a ciência política. Martins Rodrigues foi contratado pela Unicamp em 1985, no programa de pós-graduação em ciência política. Do sindicalismo, migrou para a pesquisa sobre os partidos políticos, seus métodos de recrutamento e as origens sociais de seus dirigentes. 

É de 2008 um de seus mais importantes livros, Mudanças na Classe Política Brasileira, na qual investiga como o Congresso Nacional se tornou mais popular e menos elitista, em sua composição, entre 1998 e 2002. Antes disso, ele registrava o declínio dos sindicatos em Destinos do Sindicalismo, de 1999, que mostrou o efeito das transformações nas relações de trabalho e das cadeias produtivas brasileiras no poder político das instituições que representam os trabalhadores.  

Membro da Academia Brasileira de Ciências, foi homenageado em 2001 com a Ordem Nacional do Mérito Científico. Em 2009, recebeu o prêmio que leva o nome de seu orientador nos tempos de doutorado, concedido pela Sociedade Brasileira de Sociologia. Martins Rodrigues se aposentou em 2003 como professor da Unicamp, mas não interrompeu suas atividades de pesquisador no campo das ciências políticas. Nos últimos anos ainda participava de um estudo sobre a mudança no perfil dos parlamentares brasileiros. 

A generosidade foi um dos traços mais destacados por colegas de profissão em manifestações de pesar. “Léo era bom de papo, curioso e generoso. Vai fazer falta nesse tempos anestesiados”, escreveu a historiadora Lilia Schwarcz, no Twitter. 

O cientista político Humberto Dantas caracterizou a morte como uma “perda imensa para a ciência política, para a sociologia, para a academia”, e registrou a influência do trabalho de Martins Rodrigues para os estudos de várias gerações de estudiosos que o seguiram. “Sem o seu trabalho sobre as caracterizações dos deputados constituintes eu não teria condições de avançar em parte de minhas argumentações.”

“Grande estudioso dos partidos e sindicatos no Brasil, de uma geração notável de cientistas sociais”, escreveu o cientista político Cláudio Couto. “Lendo-o ou conversando com ele, aprendi muito.” 

 

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