WERTHER SANTANA/ESTADÃO
WERTHER SANTANA/ESTADÃO

Morre José Arthur Giannotti, referência da filosofia brasileira

Professor emérito da USP e um dos fundadores do Cebrap morre aos 91 anos; filósofo foi guia intelectual do PSDB na gestão FHC

Redação, O Estado de S.Paulo

27 de julho de 2021 | 17h26
Atualizado 28 de julho de 2021 | 10h47

Morreu nesta terça-feira, 27, aos 91 anos, em São Paulo, o professor José Arthur Giannotti, considerado um dos maiores nomes da filosofia brasileira. A causa da morte não foi divulgada. Paulista de São Carlos, ele era professor emérito da Universidade de São Paulo (USP) e ajudou a fundar o Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), entidade de estudos sociais e de formulação de políticas que surgiu em 1969 e reunia opositores do regime militar.

Crítico dos métodos tradicionais de se pensar a política, Giannotti defendia a proximidade da filosofia com outras áreas das ciências sociais. Autor de obras que tratam da reflexão sobre o trabalho e sobre a viabilidade de modelos políticos no capitalismo, era um dos mais respeitados estudiosos da obra de Karl Marx no Brasil.

 O velório será nesta quarta-feira, na Rua São Carlos do Pinhal, na Bela Vista, região central de São Paulo.

Giannotti decidiu ingressar na USP por influência do escritor Oswald de Andrade, que conheceu na adolescência, após se mudar para a capital paulista com a família. Assistiu a primeira aula universitária no prédio da Rua Maria Antônia, no início de 1950, com outros nove alunos. A memória das primeiras lições com o professor francês Gilles-Gaston Granger, que explorava a epistemologia francesa e a formação do pensamento, foi marcante o suficiente para que Giannotti as registrasse mais de 60 anos depois nas páginas do Estadão, em um artigo para o caderno Aliás

Em 1956, Giannotti fez um intercâmbio em Rennes, na França, por meio de uma bolsa da Capes e do governo francês, e reencontrou o mestre. Estudou em Paris pouco depois, mas suas convicções acadêmicas a partir daí o levariam de volta ao Brasil e a caminhos diferentes do professor. “Granger era ciumento, não via com bons olhos minhas viagens pela fenomenologia e pelo marxismo”, escreveu.

Na virada para a década de 1960, fundou o grupo Seminários Marx, que tinha entre seus participantes historiadores, economistas, cientistas sociais, críticos literários e filósofos – entre eles Fernando Henrique Cardoso, Paul Singer, Ruth Cardoso e Roberto Schwarz, em diferentes gerações. Integrantes do mesmo grupo seguiriam para a fundação do Cebrap no fim da década. Ele presidiu o centro de estudos de 1984 a 1990 e entre 1995 e 2001.

Muito próximo do ex-presidente Fernando Henrique, o filósofo se tornou uma referência teórica para integrantes do PSDB durante os anos em que os tucanos ocuparam o governo federal e depois, quando era o partido de referência na oposição aos petistas.

Em 2014, em uma entrevista ao Estadão, declarou-se “tucanoide” – um ex-eleitor do PT que, decepcionado com os governos Lula e Dilma, pregava voto útil nos tucanos. À época, ele previu as dissidências internas no partido após as eleições nacionais daquele ano. Era um crítico das duas siglas, respeitado à esquerda e à direita.

O filósofo foi membro do Conselho Nacional de Educação (CNE) e de diversos conselhos deliberativos da área educacional e científica, como da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). 

Publicou, entre outras obras, os livros Apresentação do mundo (1995), Certa herança marxista (2000), O jogo do belo e do feio (2005) e Lições de filosofia primeira (2011), todos pela Companhia das Letras.

Repercussão

Fernando Henrique lamentou a morte de Giannotti, que, segundo ele, foi um “amigo como poucos”, e destacou a longa trajetória de amizade. “Amigo há mais de 70 anos. Filósofo e grande leitor dos clássicos. Amigo como poucos, desses que são raros. Deixa saudades e gratidão”, escreveu o ex-presidente no Twitter. 

Em nota, o Cebrap classificou o estudioso como “um dos maiores intelectuais brasileiros” e lamentou a morte de Giannotti. “É com imensa tristeza que o Cebrap recebe a notícia do falecimento de um de seus fundadores, o professor José Arthur Giannotti. Aos familiares e amigos que tiveram o privilégio de conviver com Giannotti, um dos maiores intelectuais brasileiros, nossas sinceras condolências”, diz o comunicado. 

O sociólogo Sergio Abranches destacou a trajetória de Giannotti, que, de acordo com ele, foi “um dos maiores pensadores do Brasil”. “Vida longa dedicada ao pensamento”, escreveu Abranches. 

O professor Raphael Neves, do curso de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), lembrou dos tempos em que era estagiário e se encontrava com o filósofo. Atualmente, Neves é diretor científico do Cebrap. “Já faltei a estágio para ver o Giannotti e estive em uma prévia do último livro. 91 anos, mas com vontade de discutir e empolgação de um estudante”, escreveu o professor.

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