Morre guerrilheira trocada por embaixador dos EUA

Atual ouvidora-geral da Petrobrás, ela estava internada desde 25 de abril, quando sofreu acidente grave de carro em Búzios

Felipe Werneck, O Estadao de S.Paulo

16 de maio de 2009 | 00h00

Morreu ontem, no Rio, Maria Augusta Carneiro Ribeiro, a Guta, única mulher entre os 15 presos políticos libertados em 1969 em troca do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick, sequestrado dias antes, na mais ousada das ações executadas por organizações de esquerda durante o regime militar. Maria Augusta tinha 62 anos e trabalhava desde 2003 como ouvidora-geral da Petrobrás.Ela havia sofrido um acidente grave de carro no dia 25 de abril, em Búzios, no litoral norte do Rio. O Hospital Copa D?Or, para onde foi transferida de helicóptero um dia após o acidente, informou que ela morreu às 10h40, vítima de falência múltipla de órgãos. De acordo com o hospital, Maria Augusta foi submetida a diversas cirurgias, mas não resistiu. Em nota, a Petrobrás destacou a trajetória "marcada pela luta em prol dos direitos humanos e pela redemocratização do País" de Maria Augusta. Ela tinha 21 anos quando, no dia 7 de Setembro de 1969, os jornais de todo o País apresentaram a fotografia de 13 dos 15 presos políticos libertados em troca do embaixador Elbrick - sequestrado numa ação conjunta da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8).De acordo com o acerto feito entre o governo e os sequestradores, os presos foram despachados para a Cidade do México, seguindo depois para Cuba. Na foto, diante de um avião Hércules 56, Guta aparecia entre os militantes Ricardo Vilas Boas e Ricardo Zarattini.Também fazia parte do grupo o ex-ministro José Dirceu, que ontem relembrou o episódio em seu blog. Disse que conheceu Guta na viagem para o México. "Guardarei dela a imagem de combatente e de resistente, marcas que a acompanharam sempre, até agora nesses dias em que, hospitalizada, lutou bravamente pela vida", escreveu ele em seu blog.O ex-ministro elogiou a atuação de Guta na Petrobrás, afirmando que transformou a ouvidoria em "importante ferramenta para a garantia da transparência, valorização dos princípios éticos e respeito aos direitos humanos". Quando foi detida, em maio de 1969, Guta militava na Dissidência Guanabara do Partido Comunista, que mais tarde passaria a ser conhecida como MR-8. Na prisão, foi torturada e teve alguns de seus dentes quebrados.No exterior, passou por Chile, Itália, Argélia e Suécia. Voltou ao Brasil em 1979, após a Lei da Anistia, e participou da fundação do PT do Rio. Durante o governo de Benedita da Silva dirigiu da Fundação Santa Cabrini, da Secretaria de Justiça. Segundo Dirceu, a última causa na qual ela se engajou foi na defesa de seu sobrinho-neto Sean, cujo pai , o norte-americano David Goldman, disputa na Justiça, com o pai adotivo brasileiro, a guarda da criança.Guta não gostava de falar sobre a tortura que sofreu naquele ano de 1969, quando o País era governado por triunvirato militar, após o marechal Costa e Silva ter sofrido uma isquemia cerebral e sido afastado da Presidência da República.

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