Morre freira que foi torturada e banida do País na ditadura militar

Madre Maurina marcou a luta da Igreja Católica em defesa dos direitos humanos; delegados que a prenderam foram excomungados à época

José Maria Mayrink, de O Estado de S. Paulo

10 de março de 2011 | 19h00

Madre Maurina Borges da Silveira, a freira que foi presa, acusada de subversão, torturada e banida do País durante a ditadura militar, morreu no último sábado, dia 5, em Araraquara, interior de São Paulo, onde vivia num convento de sua comunidade, a Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição. A freira tinha 84 anos e sofria do Mal de Alzheimer.

 

A história de Madre Maurina marcou a luta da Igreja Católica em defesa dos direitos humanos, nos anos mais difíceis do regime de 1964. Começou com sua prisão, em outubro de 1969, quando ela foi levada num camburão para uma delegacia de Ribeirão Preto, onde era a superiora do Lar Santana, um orfanato para meninas, na Vila Tibério.

 

Acusação: acobertar militantes da Frente Armada de Libertação Nacional (FALN), que se reuniam e imprimiam material subversivo no porão do Lar Santana. Segundo testemunhos posteriores, Madre Maurina cedeu o espaço sem saber o que os jovens que abrigou discutiam em suas reuniões. Ao descobrir, mandou queimar exemplares do jornalzinho O Berrro, encontrado no porão.

 

"Madre Maurina foi uma grande vítima da ditadura militar, porque não tinha nenhuma participação política e jamais participou de organização que pregava a luta armada", disse ontem d. Angélico Sandro Bernardino, bispo emérito (aposentado) de Blumenau - SC, na época padre em Ribeirão Preto, onde dirigia o jornal Diário de Notícias.

 

O então arcebispo de Ribeirão Preto, d. Felício César da Cunha Vasconcelos, excomungou os dois delegados que prenderam a freira. O caso Madre Maurina teve repercussão internacional, não só pelo envolvimento da Igreja como também pelas consequências políticas. Levada para São Paulo, ela foi interrogada pelo delegado Sérgio Paranhos Fleury e torturada.

 

Madre Maurina negou que tivesse sido violentada e sofrido outras agressões sexuais, como se divulgou. Foi pendurada no pau-de-arara e submetida a choques elétricos, mas o que mais lhe doeu, conforme relatou, foram as ofensas morais, blasfêmias e palavrões. Nos anos seguintes, não queria falar sobre o assunto e dizia ter perdoado a seus agressores.

 

Depois de passar cinco meses na prisão, Madre Maurina foi banida para o México, contra sua vontade, em troca do cônsul japonês Nokuo Okuchi, que havia sido sequestrado por militantes de esquerda, sob o comando da Vanguarda Popular Revulcionária. Voltou ao Brasil com a decretação da anistia, em 1979.

 

Madre Maurina retomou então seu trabalho de religiosa na Congregação das Irmãs Franciscanas da Imaculada Conceição. Viveu por muitos anos em Catanduva, SP, sempre discreta. "Espero que, após sua morte, Madre Maurina receba o reconhecimento que ela mereceu como cidadã que foi vítima da ditadura", disse d. Angélico.

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