Dida Sampaio/Estadão
Dida Sampaio/Estadão

Morre aos 81 anos Alberto Goldman, ex-governador de São Paulo

Líder tucano estava internado desde o dia 19 de agosto, quando teve uma hemorragia cerebral e precisou passar por cirurgia

Marcelo Godoy e Pedro Venceslau, O Estado de S.Paulo

01 de setembro de 2019 | 14h03

Morreu neste domingo, 1.º,  o ex-governador de São Paulo e deputado federal Alberto Goldman (PSDB). Ele estava internado desde o dia 19 no hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. O líder tucano teve uma hemorragia no cérebro detectada por exames e foi operado em seguida, mas não resistiu. Ex-comunista, Goldman aderiu à social-democracia e se tornou um de seus maiores nomes no País.

Desafeto de Goldman desde que este se opôs à sua candidatura a prefeito de São Paulo em 2012, o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), decretou três dias de luto oficial.  Doria, que tentara sua expulsão do partido em 2018 - a Executiva tucana barrou a medida -, ofereceu o Palácio dos Bandeirantes para o velório do colega de partido. O velório, no entanto, será na Assembleia Legislativa e o enterro, no cemitério israelita do Butantã, às 15 horas da segunda-feira, dia 2.

Nascido em 12 de outubro de 1937, em São Paulo, Goldman era filho de Dora, uma dona de casa, e de um alfaiate polonês, Wolf Goldman. Seu avô paterno tinha uma pequena loja de tecidos em uma cidade da região de Lublin, no interior da Polônia – recentemente, o ex-governador viajara ao país e tentara encontrar os antigos jazigos da famílias, mas o cemitério havia sido destruído e nada sobrara da memória dos Goldman no lugar. Nem uma lápide. “Impressionante. Os nazistas levaram os vivos e os mortos também.”

No Brasil, seu pai começou a trabalhar como alfaiate e, depois, com o irmão montou uma confecção de roupas masculinas. Moravam no Bom Retiro, no centro de São Paulo, bairro que então concentrava a população judaica de São Paulo. Alberto Goldman cursou a Escola Politécnica (Poli) da Universidade de São Paulo, onde se formou engenheiro civil. Ali começou a militância política. “No primeiro ano da Poli me filiei ao partido. A base era grande.” Era 1955.

O partido era o Partido Comunista Brasileiro, o PCB. “Minha mãe havia sido militante do partido comunista na Polônia. E meu pai não era propriamente militante, mas era próximo.” O menino conviveu com discussões em casa, durante a guerra, sobre os acontecimentos no mundo. “Fui me aproximando dessa posição.”

Participou do movimento estudantil. Quando deixou a faculdade não se vinculou a nenhuma outra base do partido, mas permaneceu ligado ao grupo da comunidade judaica do Bom Retiro ao lado de militantes como Max Altman e Jacob Wolfenson. “Era um pessoal muito bem formado.” Trabalhava então em uma empresa de engenharia que ele abriu depois de sair da faculdade.

Ligou-se aos Comitês Municipal e estadual do partido, uma militância clandestina. “Participava das reuniões e discussões.” Tinha já três filhos quando, em 1969, após o Ato Institucional-5 (AI-5) , foi procurado em seu escritório de engenharia pelos dirigentes do partido Moacir Longo e Hércules Corrêa dos Reis, ambos cassados pelo regime. “Em nome do comitê estadual, eles me comunicaram que o partido queria que eu fosse candidato a deputado estadual.” Os militares haviam acabado de cassar em 1968 o deputado estadual Fernando Perrone (MDB), que era o homem do partido na Assembleia Legislativa.

“Resisti durante meses. Não queria entrar nisso. Era um loucura, pois era a pior época para isso (entrar na política).” Quando decidiu ser candidato, teve de enfrentar a oposição do pai. “Meu pai fazia campanha contra mim, achando que eu havia enlouquecido. E acho que ele tinha razão”, lembrava décadas depois. Era o começo de uma carreira que não teria mais fim. “Tento, tento e não consigo deixar a política”, dizia o ex-governador.

Goldman só aceitou se candidatar porque acreditava que não seria eleito. “Mais do que isso. Eu não acreditava que seria registrado no tribunal eleitoral.” Quando o desembargador Adriano Marrey recebeu o processo para decidir pelo registro da candidatura, ele disse: “Tem aqui uma série de informações do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), mas para mim informações do Dops não valem nada.”

Depois do registro da candidatura, o engenheiro teve de enfrentar a campanha. Goldman lembrava que então a repressão contra o partido não era forte. Mesmo assim, teve os passos vigiados pela polícia política. “Onde eu ia eles me acompanhavam.” Fazia comícios na porta de fábricas, com um caixote e um megafone para discursar contra o governo. Usava um Fusca para se deslocar. Elegeu-se em 1970 pelo MDB com o apoio do partido. Recebeu 17.226 votos.

“Fui eleito pelo trabalho do partido. O partido tinha bases em vários lugares, como entre os ferroviários, na Lapa, na zona norte e na Vila Formosa. E no Estado, na área da Sorocabana e em Santos. Era forte ainda nas associações de amigos de bairro e em sindicatos, como o dos metalúrgicos e o da construção civil.” Foi o oitavo deputado mais bem votado em sua legenda, o MDB.

Depois de eleito, passou a manter encontros com integrantes do Comitê Central em casa e em restaurantes. Os contatos eram esparsos. “Comecei a fazer os discursos que tinha de fazer e meus colegas achavam que eu ia ser cassado.”  Com o tempo a repressão se abateu sobre a estrutura do partido, que buscava uma política de frente democrática contra a ditadura militar.

Após as primeiras prisões em 1972, Goldman pensou que seria logo preso. Aproveitou um convite do Departamento de Estado americano para acompanhar as eleições presidenciais entre o republicano Richard Nixon e o democrata George McGovern para ficar 20 dias fora do País. “Quando voltei estava mais calmo.” Era o início de uma série de golpes da repressão contra o partido. “Por algum fator que não sei explicar, nunca fui cassado.”

Atravessou a década de 1970 com certeza que continua sob vigilância. Foi avisado por Ivahir Rodrigues Garcia, delegado de polícia e deputado estadual (Arena), que tinha os passos controlados. “Sou teu colega aqui. Você tem duas funcionárias aqui, uma delas é agente do Dops.”, disse o delegado. Goldman nunca manteve nada arquivado, mantinha nomes e endereços na memória. “Sabia que era vigiado e que a qualquer momento podia ser apanhado.”

Em 1974, foi reeleito deputado estadual com 75 mil votos. Tornara-se o segundo mais votado do Estado em meio à avalanche de votos dada ao MDB. “Fazia palestras em universidades. Passei a ser uma referência de oposição ao regime. Sempre procurei fazer meus discurso, muito duros, mas nunca ultrapassando uma linha e evitando as agressões pessoais.”

Tornou-se líder da bancada do MDB, que tinha então dois terços da Assembleia Legislativa paulista. “Eu podia aprovar o que quisesse e derrubar o que quisesse.” Conviveu com o governador Paulo Egydio Martins (Arena), que lhe mandava os projetos antes, iniciando uma relação que se transformaria em amizade pessoal.

Em 1975, após a prisão e morte do jornalista Vladimir Herzog nas dependências do Destacamento de Operações de Informações (DOI), do 2.º Exército, o governador Paulo Egídio chamou a bancada do MDB ao Palácio dos Bandeirantes para um encontro com o presidente Ernesto Geisel. Goldman disse então para o Geisel: “Presidente, estão matando gente em São Paulo”. Geisel ouviu o relato, com a bancada do MDB em torno dos dois. “Eu sei”, respondeu o general.

Meses depois, após mais uma morte no DOI – a do operário Manoel Fiel Filho –, o presidente removeria do comando do 2.º Exército o general Ednardo D’Ávila Mello. Para acalmar a linha dura militar, cassaria dois deputados comunistas de São Paulo – Nelson Fabiano e Marcelo Gatto. “Na hora que eu sabia de uma prisão, ia para os jornais denunciar. Era a forma de anunciara que a pessoa havia sido presa para preservar a vida dela.” Foi assim com o dirigente comunista Marco Antônio Tavares Coelho, preso no Rio e trazido para São Paulo.

Em 1977, propôs a Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a invasão da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, feita pela polícia de São Paulo para impedir um congresso estudantil. Presidiu a comissão que interrogou o então secretário da Segurança, o coronel Erasmo Dias. Ia então para Buenos Aires para encontrar com José Salles, integrante do Secretariado do partido no exílio e homem de confiança do então secretário-geral Luiz Carlos Prestes. Em 1978, elegeu-se deputado federal com 102 mil votos e seria reeleito em 1982 pelo MDB.

Em 1986, após a legalização do PCB em 1985, torna-se líder do partido na Câmara dos Deputados e integrante do Comitê Central. Candidata-se pelo partido e, pela primeira vez, não é reeleito. “Meu voto era muito PMDB. E na lei de então prevalecia o nome do partido.”

Se torna secretário de coordenação de programas do governo de Orestes Quércia (PMDB) em 1987 e, em seguida, deixa o PCB e retorna ao PMDB. Depois seria secretário de administração. Em 1990, apoia a candidatura de Luiz Antonio Fleury Filho ao governo do Estado. “Foi uma invenção nossa. Uma infeliz invenção. A outra foi o  (Michel) Temer, que ajudei a tornar líder do PMDB na Câmara.” No quercismo, o ex-governador permaneceria até 1996.  Ingressou então com outros emedebistas no PSDB.

Em 1990, voltou a se candidatar e a ser eleito deputado federal. No governo Itamar Franco (1992-1995), tornou-se ministro dos Transportes. Como tucano, foi deputado ainda em 1998 e 2002. Em 2006, elegeu-se vice-governador na chapa de José Serra (PSDB), assumindo o governo do Estado em 2010 após a renúncia do colega, que se candidatou à Presidência.

“Quando saí do governo em 2011, decidi pagar minhas dívidas com os filhos e netos. Nesses 40 anos de política não os vi crescerem. Um dos meus filhos é traumatizado. Não deixava meus netos falarem em política.” O menino assistia à televisão nos anos 1970 e ouviu o nome do pai. Era um militar que acusava Goldman de subversão. “Meu filho me perguntou: ‘Pai, você é comunista?’ Hoje ele tem 50 anos. Ficou traumatizado.”

Levava os netos ao cinema. Tornou-se vice-presidente do PSDB e um dos principais adversários do atual governador João Doria. Bem-humorado, gostava de fustigar o adversário. Quando Doria disse que ele era "um improdutivo, fracassado que vivia de pijamas", respondeu: "Sou velho, mas não sou velhaco".

O atual governador do Estado era apontado como a pessoa por trás da manobra do Comitê Municipal de São Paulo que expulsara o ex-governador do PSDB em 2018 em razão de seu apoio à candidatura à reeleição de Márcio França (PSB) ao governo paulista. Doria, então candidato do partido, chamou o desafeto de traidor após Goldman criticar a gestão dele na Prefeitura.

Na segunda-feira, dia 19 de agosto, foi ao hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, para tomar antibióticos, mas ficou sonolento. Um exame de tomografia acusou um sangramento no cérebro. Seguiu diretamente para cirurgia no cérebro e teve de ficar sedado na UTI. A família foi orientada a não permanecer  por muito tempo no local, pois qualquer estímulo poderia levar a um novo sangramento, que poderia ser fatal. 

Alberto Goldman deixa a mulher, Deuzeni Trisoglio, cinco filhos e quatro netos. "Minha vida política foi mais do que fazer proselitismo. Foi minha forma de contribuir com o país”, disse. 

Confira o comunicado da família:

"Com grande pesar comunico que faleceu nesta tarde o ex-governador Alberto Goldman.

Nascido em 12 de outubro de 1937, Goldman era engenheiro formado pela Escola Politécnica, foi deputado estadual por dois mandatos (1971-1978), deputado federal por seis mandatos (1979-1986 e 1991-2006), Ministro dos Transportes (Governo Itamar Franco), secretário de Estado, vice-governador e governador de São Paulo.

Alberto Goldman deixa esposa, cinco filhos e quatro netos. "

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.