Sérgio Castro|Estadão
Sérgio Castro|Estadão

Moreira Franco ainda dá passos de ‘gato angorá’

Ex-ministro com apelido dado por Brizola passou pelos governos FHC, Lula e Dilma e hoje articula eventual governo Temer

Luciana Nunes Leal, O Estado de S.Paulo

30 Abril 2016 | 18h16

RIO - Poucos dias antes de morrer, em junho de 2004, o ex-governador e líder trabalhista Leonel Brizola recebeu a visita de um antigo adversário, Wellington Moreira Franco, seu sucessor no governo do Rio de Janeiro, eleito em 1986 pelo PMDB. Bem-humorado, Brizola confessou que, apesar de todos os confrontos, Moreira Franco fez um bem a ele. “Fiquei com tanta raiva quando Darcy (Ribeiro, candidato do PDT ao governo) perdeu a eleição para você que parei de fumar”, contou.

Quem lembra a história é Carlos Lupi, homem de confiança de Brizola durante 20 anos e sucessor do ex-governador na presidência nacional do PDT. Foi Brizola quem deu a Moreira, por causa da cabeleira grisalha precoce, o apelido de “gato angorá”. “Brizola dizia que a característica do gato angorá é passar de colo em colo. Valia no passado e vale agora. Moreira foi aliado do Fernando Henrique, do Lula, da Dilma, estará no governo Temer, se houver, e não duvido que esteja no governo seguinte”, critica Lupi.

Escolhido para comandar o grupo executivo responsável pelas concessões e privatizações do eventual governo de Michel Temer, Moreira Franco não é, de fato, um estranho no ninho da Presidência da República. Foi assessor especial do presidente Fernando Henrique Cardoso. No governo de Luiz Inácio Lula da Silva, foi vice-presidente de Fundos de Governo e Loterias da Caixa Econômica Federal. E ocupou dois ministérios de Dilma Rousseff: as Secretarias de Assuntos Estratégicos e de Aviação Civil. Excluído do segundo governo Dilma Rousseff, assumiu a presidência da Fundação Ulysses Guimarães, vinculada ao PMDB, de onde articulou adesões ao impeachment, enquanto elaborava o plano de governo de Temer.

‘Genro do genro’. Antes de “gato angorá”, Moreira Franco ganhou outro apelido quando, em 1969, se casou com a socióloga Celina Vargas do Amaral Peixoto, neta do ex-presidente Getúlio Vargas, filha de Alzira Vargas e de Ernani do Amaral Peixoto, interventor e governador do antigo Estado do Rio de Janeiro, presidente do PSD e depois senador e dirigente do MDB, partido de oposição ao regime militar. Como Amaral fora apelidado pela oposição udenista de “o genro”, Moreira passou a ser o “genro do genro”. Pelo MDB, foi eleito deputado federal e prefeito de Niterói. Em 1980, Moreira ingressou no PDS, partido de sustentação do último presidente militar, João Figueiredo.

“Moreira, outrora, tinha um pensamento de esquerda. Depois mudou sua orientação e eu não mudei a minha”, diz o ex-senador e ex-prefeito do Rio Saturnino Braga, de 84 anos, que militou no MDB, PDT, PSB e hoje é filiado ao PT. Moreira foi da Ação Popular (AP), organização inicialmente cristã de esquerda, depois de orientação maoista, que participou da resistência à ditadura militar.

De volta ao PMDB, Moreira foi eleito governador do Rio de Janeiro em 1986, na esteira do Plano Cruzado, durante o governo do presidente José Sarney. Deixou uma dívida de US$ 150 milhões das obras do metrô ao sucessor (Brizola foi eleito mais uma vez em 1990) e disse ter sido vítima de retaliações de Sarney.

Dívida. Ao deixar o governo, editou o livro Moreira Franco – ele governou para todos, em que lista as principais realizações de sua própria gestão, como obras de saneamento na Baixada Fluminense. Em 1998, o Supremo Tribunal Federal confirmou decisão da Justiça do Rio, e o ex-governador teve de devolver R$ 400 mil ao Estado, acusado de promoção pessoal.

Moreira voltou à Câmara em 1994 e tornou-se um dos líderes da bancada aliada a Fernando Henrique Cardoso. Em 1998, tentou sem sucesso se eleger senador. Foi então nomeado assessor especial da Presidência da República, no segundo mandato de FHC. Escolhido na cota do presidente, não entrava na contabilidade de indicações do PMDB. O mesmo aconteceu no governo Dilma, quando foi para o Ministério na cota do vice-presidente Michel Temer. Em 2010, Moreira foi representante do PMDB na campanha de Dilma. No segundo mandato da petista, ficou fora do primeiro escalão.

Momento decisivo. “Eu disse à presidente Dilma, em agosto do ano passado, que foi um erro ter tirado o Moreira do Ministério. Ele trabalhou muito pela eleição de Dilma em 2014. Estávamos em lados opostos e Moreira nos atrapalhou bastante”, diz o presidente do PMDB-RJ, Jorge Picciani, que nas eleições presidenciais liderou a dissidência no PMDB que apoiou o tucano Aécio Neves.

Depois da derrota de Aécio, Picciani se reaproximou de Dilma e reforçou o discurso contra o impeachment. Mais uma vez, estava em campo oposto ao de Moreira Franco. Há dois meses, porém, Picciani passou a defender o afastamento da presidente, com a justificativa de que Dilma não tinha capacidade de criar consenso para enfrentar a crise política e econômica. Moreira foi decisivo para a mudança de Picciani.

“Antes de eu me encontrar com Michel Temer, tive umas cinco conversas com o Moreira. Ele fazia uma intriga positiva. Dizia ao Temer que era difícil eu recuar (do apoio a Dilma) e dizia para mim que Temer é a pessoa capaz de fazer um governo de união nacional. Moreira e eu estivemos juntos em muitas ocasiões e separados em outras. Mas sempre conversamos com franqueza e muito respeito”, diz Picciani.

Campanha. No ano passado, Moreira passou a percorrer o País. Primeiro, falava na elaboração de um plano de políticas públicas do PMDB, que evoluiu para o esboço de ações de um possível governo Temer, chamado “Ponte para o Futuro”. Ao mesmo tempo, costurava adesões ao afastamento da presidente. Formava assim, ao lado de outros dois ex-ministros, Geddel Vieira Lima e Eliseu Padilha, o triunvirato de Temer no PMDB. Com o avanço do impeachment, ampliou o plano para chegar ao documento “A Travessia do Social”, sobre mudanças para a área.

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