ADRIANO MACHADO/REUTERS
ADRIANO MACHADO/REUTERS

‘Moreira deixou a Caixa por não saber arrecadar’, diz delator

De acordo com Fernando Reis, atual ministro foi substituído no banco por Fábio Cleto por não obter recursos para o PMDB

O Estado de S.Paulo

15 de abril de 2017 | 05h00
Atualizado 15 de abril de 2017 | 10h55

BRASÍLIA - O ex-presidente da Odebrecht Ambiental Fernando Cunha Reis relatou à Procuradoria-Geral da República (PGR) uma conversa com o ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha (PMDB-RJ), atualmente preso em Curitiba, na qual o então deputado teria atribuído a substituição do atual ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Moreira Franco, na cúpula da Caixa à sua incapacidade de arrecadar recursos para o PMDB como dirigente do banco.

"Ele (Eduardo Cunha) me disse claramente que estava substituindo o senhor Moreira Franco pelo Fábio Cleto porque o FI (Fundo de Investimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) era uma fonte importante para o partido e o senhor Moreira Franco não estava sabendo arrecadar para o PMDB a partir das operações do FI-FGTS", declarou Reis em um de seus depoimentos.

Moreira Franco foi até julho de 2010 vice-presidente de Fundos e Loterias da Caixa, por indicação do PMDB. A área é a responsável pela gestão dos recursos do FI-FGTS. Em 2011, ele foi sucedido por Fábio Cleto, apadrinhado de Cunha. Cleto firmou acordo de delação com a Lava Jato e confessou no ano passado esquema de cobrança de propina de grandes empresas para o ex-deputado e seu grupo, em troca da liberação de recursos bilionários do fundo.

Cunha, Cleto e outros envolvidos são réus de ação penal em curso na Justiça Federal em Brasília, acusados de corrupção, lavagem de dinheiro e outros crimes por envolvimento no suposto esquema. O ex-deputado nega.

Em seu depoimento à PGR, Reis disse que a conversa com Cunha se deu em meados de 2011. Para ele, o diálogo "deixou claro que a nomeação de Fábio Cleto tinha cunho de arrecadação político-partidária".

As declarações do delator e de outros seis executivos da Odebrecht sobre os desvios na Caixa e outros órgãos públicos serão juntados a um inquérito, já em trâmite no Supremo Tribunal Federal (STF), que apura o envolvimento de políticos do PMDB da Câmara em organização criminosa. Moreira não consta como investigado neste caso. O relator da Lava Jato na Corte, Edson Fachin, também autorizou a remessa de parte desse material para Justiça Federal em Brasília, que avalia a ação penal de Cunha.

Em entrevista ao Estado, em setembro do ano passado, Cunha sugeriu envolvimento de Moreira em corrupção na Caixa. Citou a liberação de recursos para o Porto Maravilha, no Rio, obra na qual, segundo a Lava Jato, houve desvios.

"Acho engraçado quando você pega e fala de delação (de Cleto), citando Porto Maravilha, quando quem conduziu toda a negociação e abertura de financiamento, em conjunto com o prefeito do Rio (Eduardo Paes, do PMDB), foi o Moreira. E agora aparece uma denúncia e é contra mim? Isso é surreal", declarou Cunha. "Quem comandava e ainda comanda o FI chama-se Moreira Franco. E lá tem muitos financiamentos concedidos que foram perdas da Caixa. Na hora em que as investigações avançarem, vai ficar muito difícil a permanência do Moreira no governo."

Depois de preso, no fim do ano passado, Cunha formulou perguntas ao presidente Michel Temer (PMDB), na qual volta a investir contra o ministro, homem-forte do atual governo.

"Tem conhecimento de oferecimento de alguma vantagem indevida, seja a Érica ou Moreira Franco, seja posteriormente para liberação de financiamento do FI/FGTS?", indagou. O questionamento não chegou a ser enviado ao presidente, pois o processo foi suspenso e voltou a uma fase anterior à de inquirição de testemunhas.

Procurado na quinta-feira, 13, e sexta-feira, 14, por meio de sua assessoria, Moreira preferiu não se pronunciar sobre as declarações de Reis. Por meio de nota, a Caixa afirmou que em relação às investigações no âmbito da operação Lava-Jato, o banco reafirma "irrestrita colaboração" com as autoridades, procedimento que continuará sendo adotado pela instituição financeira. /BERNARDO GONZAGA E LIANA COSTA, ESPECIAIS PARA O ESTADO, FÁBIO FABRINI E BRENO PIRES

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