Tiago Queiroz/AE
Tiago Queiroz/AE

Moradores cobram plano para gestão das águas

São Paulo tem centenas de áreas que sempre ficam debaixo d’água; especialistas sugerem plano de obras e mais ordem na ocupação do solo

Fernando Gallo e Débora Álvares, de O Estado de S. Paulo

07 de setembro de 2012 | 22h30

Os alagamentos crônicos que Paulo Afrânio Asevedo e os vizinhos da Rua Havaí, na Pompeia, zona oeste, enfrentam a cada temporada se reproduzem em centenas de outras áreas de São Paulo. Especialistas apontam a ausência de um amplo plano de obras e o processo desenfreado de urbanização como os principais problemas a serem enfrentados pelo próximo prefeito.

A intensificação dos regimes de chuva aumenta a vazão de rios e córregos na bacia do Tietê na região metropolitana. Aliada a isso, a ocupação desordenada do solo leva a uma concentração cada vez maior das águas na cidade.

Entre 2004 e julho deste ano, de acordo com dados da Secretaria de Desenvolvimento Urbano de São Paulo, a região, que abrange, além da Pompeia, a Barra Funda e Perdizes, teve 418 mil m² construídos acima do limite original programado para o bairro, numa área equivalente a cerca de 60 campos de futebol.

Resultado: sempre que chove forte, os córregos e as galerias transbordam, a água não tem para onde escorrer por causa da pavimentação excessiva, e a Rua Havaí submerge rapidamente, alagando a casa do engenheiro Asevedo. Em bairros como a Pompeia e a vizinha Vila Madalena, que ficam em regiões de aclives e declives muito acentuados, as enchentes são quase instantâneas em dias de chuva forte.

Segundo a Operação Urbana Água Branca, que abrange a região da Pompeia, o aumento da área construída no bairro teria de ser compensado por um grande parque. A área verde ficaria nos 160 mil m² ocupados pelos centros de treinamento de Palmeiras e São Paulo - de posse do Município, cedidos até 2020 para os dois clubes -, na Avenida Marquês de São Vicente. Em maio, porém, o prefeito Gilberto Kassab (PSD) enviou à Câmara Municipal um projeto que dá ao Palmeiras e ao São Paulo o direito de ficar por mais 70 anos nos terrenos. A proposta está parada na Comissão de Constituição, Justiça e Legislação Participativa da Casa.

A administração municipal aguarda licenciamento ambiental para fazer outras obras previstas na Operação Água Branca, como obras de drenagem dos córregos Sumaré e Água Preta. Depois de iniciadas, as obras deverão durar cerca de 30 meses.

A atual gestão encomendou - e já recebeu - um estudo, feito pela Universidade de São Paulo (USP), com um levantamento dos problemas de rios e córregos do ponto de vista da drenagem. É o primeiro estudo que leva em conta especificidades das seis bacias consideradas mais importantes por especialistas - Aricanduva, Verde, Cabuçu de Baixo, Ipiranga, Morro do S e Córrego do Cordeiro. A partir disso, a Prefeitura desenvolverá um plano específico para cada bacia.

Especialistas apontam diversas soluções que o próximo prefeito pode tomar para minimizar as enchentes na capital. Uma delas é o mapeamento dos pontos críticos de enchente na capital. Por incrível que pareça, não há nenhum estudo sobre isso.

O Centro de Gerenciamento de Emergências (CGE), que monitora a situação de enchentes, registrou 392 pontos de alagamentos de novembro de 2011 a abril de 2012, época de maior frequência de chuvas e quando é feita a operação verão. O número é menor que na temporada de 2010/ 2011, quando houve 574 casos.

O professor Mario Thadeu Leme de Barros, do Departamento de Energia Hidráulica da Poli-USP, sugere a criação de um órgão que seja responsável especificamente pela gestão das águas. "Você tem vários órgãos da Prefeitura que atuam em diversos níveis em relação à drenagem urbana, mas há necessidade de ter um sistema de gestão pra ganhar eficiência e eficácia", diz.

Ricardo Toledo Silva, professor de infraestrutura urbana da FAU-USP, afirma que o próximo prefeito deve se engajar prioritariamente na revisão do plano de macrodrenagem municipal e na revisão dos planos regionais. "São eles que vão definir concretamente as legislações locais de uso e ocupação do solo", afirma.

Ambos apontam a necessidade de criação de piscinões nos locais onde for possível instalá-los - o plano estadual de macrodrenagem de 1998 previa a construção de 134, mas só 45 foram instalados.

Julio Cerqueira Cesar Neto, ex-presidente da Agência da Bacia do Alto Tietê, afirma que só os piscinões não resolvem. "Só na bacia do Tamanduateí há 18 piscinões. Mas as enchentes são muito piores hoje do que eram antes deles."

A sugestão é aumentar a cobertura verde, inclusive com recuperação das margens de rios e córregos, e estimular a criação de calçadas permeáveis, além de obras localizadas.

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