"Monumental estupidez", diz o <i>Estado</i> sobre expulsão

Ao cancelar o visto do jornalista do New York Times, o Planalto acabou tratando de forma duplamente calamitosa um assunto que, além de não justificar o alarido a seu respeito, tinha se esgotado. A afirmação é do jornal O Estado de S. Paulo, em editorial na edição desta quinta-feira, sob o título ?Monumental estupidez?. Leia a íntegra do editorial: A decisão de cancelar o visto - o que equivale à expulsão - do jornalista Larry Rohter, do New York Times (NYT), como punição pela reportagem sobre o que o Planalto denominou, eufemisticamente , de "hábitos sociais" do presidente Lula - além de ser, como disse um ministro do STF citado nos jornais de ontem, "uma monumental estupidez" -, indica que ele e o seu círculo íntimo foram tomados por um surto de petismo profundo - os componentes autoritários entranhados no DNA do partido. O desconforto com os princípios da "democracia burguesa" - tidos como úteis para a ascensão política e um estorvo quando colidem com um projeto ideológico de poder - combinou-se, nesse caso, com outra típica faceta petista: o antiamericanismo. Isso ficou patente no disparate propagado domingo pelo ministro da Comunicação, Luiz Gushiken, de que a matéria do NYT estaria a serviço do supremacismo do governo Bush. No editorial anterior sobre o caso, o Estado ressaltou que o próprio Lula, conforme se divulgou, recomendara que não se reagisse "com o fígado" a um fato afinal corriqueiro nas democracias, onde a imprensa considera a vida privada dos governantes de interesse público - e nem por isso eles acham que a sua honra pessoal e a dignidade nacional são atingidas quando a mídia aborda aspectos polêmicos de seu comportamento. Mas Lula mudou (ou foi levado a mudar) de idéia. E o Planalto acabou tratando de forma duplamente calamitosa um assunto que, além de não justificar o alarido a seu respeito, tinha se esgotado. Primeiro, a expulsão do jornalista, com base numa lei da ditadura militar feita para remover do País estrangeiros que lhe causassem problemas, igualou o Brasil aos regimes liberticidas, do Zimbábue de Robert Mugabe a Cuba de Fidel Castro, que merecem dos democratas de todas as tendências apenas absoluta repulsa. Segundo, se o Planalto efetivamente achou que a reportagem trouxe "grave prejuízo à imagem do País no exterior", somou supina ignorância à truculência. Artigos sobre "hábitos sociais" de chefes de Estado não produzem esse efeito: a imagem da Rússia, por exemplo, não mudou porque Boris Yeltsin aparecia no noticiário claramente embriagado. Tampouco a mídia "repercute", como se diz nas redações, matérias como a de Larry Rohter sobre Lula. Raramente elas são retomadas por órgãos diferentes daqueles que as publicaram. Já a expulsão de um correspondente do New York Times é notícia no mundo inteiro - e o fato que a motivou estará em todas as emissoras, jornais, revistas e sites na internet que se ocuparem da história - em prejuízo irrecuperável, agora sim, da imagem do Brasil. Ou seja, o Brasil se torna destaque internacional por banir um jornalista do mais respeitado jornal do planeta porque ele escreveu um artigo sobre o consumo de bebida alcoólica do presidente. Não se falará das falhas da matéria, nem se discutirá se ela é "leviana e mentirosa", como quer o Planalto. Mas Lula será estigmatizado - em prejuízo do Brasil. Não se sabe, no momento em que este comentário é redigido, como o Planalto chegou a essa vergonhosa decisão - a não ser que ela se deu à revelia do ministro da Justiça, que está em Genebra e lá foi informado da decisão do seu ministério pelo correspondente do Estado, Jamil Chade, e não disfarçou a surpresa nem a contrariedade. (Mais tarde, em entrevista à imprensa, o ministro Thomaz Bastos, incorrendo numa gaffe, chegou a dizer que o Ato Institucional n.º 5 não está mais em vigor e o jornalista americano pode recorrer à Justiça brasileira, que poderá revogar a decisão do Planalto.) Mas tudo indica que as duras críticas da imprensa e dos políticos, sem distinção, ao trabalho de Rohter, bem como as manifestações gerais de solidariedade a Lula, foram tomadas no governo pelo seu valor de face e como endosso prévio a qualquer retaliação ao jornalista. Na realidade, a mídia brasileira e a oposição foram inclementes com a matéria e generosas com o presidente por levarem em consideração, tacitamente, a peculiar biografia de Lula e o interesse nacional. Em relação a ele prevaleceu uma atitude de complacência que dificilmente se aplicaria a um presidente oriundo das elites tradicionais - ou seja, o avesso do que o Planalto a todo instante considera "preconceito". Por isso também a eleição de Lula foi cantada em prosa e verso no exterior, inclusive pelo New York Times. E em relação ao País prevaleceu o senso de responsabilidade política - o mesmo que desde a primeira hora vem poupando o Executivo de ataques mais contundentes, dada a convicção de que, no atual estado de coisas, a ninguém interessa a derrocada do governo Lula. E pensar que o presidente poderia ter dado a volta por cima chamando o jornalista para um drinque no Alvorada.

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