Jacquelyn Martin/AP Photo
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Momento de restabelecer os laços de amizade

Impopular no País, Dilma Rousseff busca sucesso no exterior, como os EUA, e, por sorte, muitos outros brasileiros também

O Estado de S. Paulo

04 de julho de 2015 | 05h00

Quando Barack Obama levou Dilma Rousseff para uma caminhada ao redor do monumento em homenagem a Martin Luther King, na segunda-feira, não se viam nuvens nos céus de Washington. Tampouco se observavam sinais de tempo fechado por causa da revelação, há dois anos, de que os americanos haviam espionado o e-mail de Dilma. Naquela altura, a presidente brasileira reagiu cancelando a visita que faria aos Estados Unidos, o que fez com que as relações entre os dois países mergulhassem numa fase de distanciamento invernal. Ninguém espera que o incidente seja esquecido, mas o clima entre os dois presidentes melhorou.

A melhora também se faz sentir no relacionamento político, inclusive em áreas sensíveis como a questão das mudanças climáticas. Dilma e Obama se comprometeram em gerar 20% da energia de seus países com fontes renováveis (descontada a eletricidade produzida por hidrelétricas) até 2030. Para o Brasil, algumas ações de caráter pacificador recentemente empreendidas pela diplomacia americana facilitaram o caminho para a reconciliação: ficou mais fácil fazer as pazes com um presidente americano que está restabelecendo relações diplomáticas com Cuba e tenta chegar a um acordo nuclear com o Irã.

Para além do restabelecimento dos laços de amizade, a viagem de Dilma foi dominada por questões comerciais. A presidente brasileira tentou seduzir investidores em Nova York com concessões na área de infraestrutura no valor de US$ 64 bilhões e, na quarta-feira, buscou conselhos sobre inovação com empresários do setor de tecnologia no Vale do Silício. Para coincidir com a visita, os americanos prometeram suspender a proibição às importações de carne brasileira – que já dura 14 anos. No ano que vem, é possível que os dois países assinem um acordo para a redução de barreiras não tarifárias e harmonização de procedimentos aduaneiros.

Fora de casa. Dilma tem bons motivos para buscar sucessos no exterior. Com o País atolado na estagnação, um escândalo de corrupção envolvendo um número cada vez maior de aliados do governo e seus índices de aprovação abaixo dos dois dígitos, a melhor esperança de boas notícias para a presidente brasileira é o front externo. Aos olhos dos brasileiros, a economia americana progride com solidez, apesar da breve desaceleração registrada no primeiro trimestre, ao passo que nos mercados emergentes as coisas parecem avançar aos trancos e barrancos. Entre janeiro e maio, com os preços internacionais do petróleo e do minério de ferro em queda, o valor das trocas comerciais entre Brasil e China caiu 19% em relação ao nível observado no ano passado.

E as duas maiores democracias do hemisfério ocidental certamente poderiam fazer muito mais coisas juntas. Embora tenham sido superados pela China na condição de maior parceiro comercial dos brasileiros, os Estados Unidos ainda são o país que mais compra produtos industrializados do Brasil. E seus investimentos no País sul-americano, totalizando US$ 116 bilhões, não são superados por nenhum outro país. 

Os brasileiros adorariam vender mais aviões e carne para os Estados Unidos, e gostariam de atrair o investimento direto de mais empresas americanas. Em 2014, as trocas de bens e serviços entre os dois países chegaram a US$ 110 bilhões – um sexto do comércio entre Estados Unidos e China – e ambos querem que esse montante duplique em dez anos.

Ritmo acelerado. Sejam quais forem os imperativos internos por trás do fenômeno, o fato é que o ritmo que Dilma vem imprimindo a suas atividades externas desde janeiro, quando iniciou seu segundo mandato, tem impressionado os diplomatas. É bem verdade que ela ainda viaja menos que seu antecessor e patrono, Luiz Inácio Lula da Silva. Mas parece ter realizado mais negócios externos nos últimos seis meses do que em seus primeiros quatro anos de governo. A hiperatividade de seu ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, também ajuda.

Coisas importantes foram feitas. Numa visita ao Brasil em maio, o primeiro-ministro chinês, Li Keqiang, prometeu US$ 103 bilhões em empréstimos e investimentos para obras de melhorias de portos e outras infraestruturas de transporte. Numa reunião de cúpula em Bruxelas, no mês passado, os brasileiros tentaram destravar as negociações comerciais entre a União Europeia e o Mercosul – o bloco comercial que o protecionismo da presidente argentina Cristina Kirchner tornou inoperante. Depois de passar uma década sem sair do papel, essas negociações devem ganhar novo impulso depois de outubro, quando os argentinos elegerão seu novo presidente.

Antes disso, Dilma havia assinado um (modesto) acordo comercial com o México e um tratado de cooperação com a OCDE, um clube de países (em sua maioria) desenvolvidos a que o Brasil parece cada vez mais interessado em se associar. Em agosto, ela receberá a chanceler alemã Angela Merkel. Fala-se também de uma visita ao Japão antes do fim do ano.

O esforço merece nota dez, mas é prudente analisar com alguma cautela seu provável resultado líquido, em especial no que diz respeito ao comércio exterior. O Brasil já passou por outros períodos de liberalização antes, apenas para reassumir suas tendências protecionistas. Por mais que falem em abertura, as autoridades brasileiras não conseguem se livrar de sua obsessão mercantilista com as exportações. 

A não ser quando provocados, os ministros de Brasília mal falam de importações, que ainda são obstruídas por tarifas e excesso de burocracia. E por mais que Obama tenha se referido ao Brasil como uma “potência global”, cujos “interesses e valores nacionais se alinham” com os interesses e valores dos Estados Unidos, o presidente americano está ocupado em negociar um acordo de livre comércio com os países do Pacífico (que exclui a China) e outro com os europeus. Ambos os projetos deixam o Brasil de lado.

Seja como for, o ânimo mais liberalizante que parece estar tomando conta do Brasil é reflexo de algo que transcende os imperativos pessoais da presidente. Muitas lideranças empresariais brasileiras se deram conta de que, para sobreviver à próxima onda de globalização, terão de aprender a competir com rivais externos tanto dentro como fora do País.

Algumas dessas lideranças, em especial as do setor agrícola, já fazem isso com gosto, especialmente quando a coisa envolve o acesso a mercados externos, e sua voz está sendo ouvida no interior do governo. “A maior ameaça ao protecionismo brasileiro chama-se Kátia Abreu”, observa uma autoridade, referindo-se à formidável ministra da Agricultura que a presidente brasileira nomeou em janeiro.

Para que o Brasil realize seu tão falado potencial como ator global (tanto em termos econômicos, como diplomáticos), será preciso mais que uma presidente em apuros. Por sorte, muitos outros brasileiros influentes, tanto dentro como fora da política, parecem finalmente ter entendido isso.3

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.


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