Miséria tem primeira alta em 10 anos, indica Ipea

País registrava queda desde 2003; governo diz que diferença está na margem de erro

LISANDRA PARAGUASSU, O Estado de S. Paulo

05 de novembro de 2014 | 21h09

Atualizado às 23h15

Brasília - Dados levantados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) apontam que, entre 2012 e 2013, o número de pessoas que vivem na extrema pobreza no País teria aumentado em 0,4 ponto porcentual, passado de 3,6% da população para 4%. Os números, recolhidos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), mostram que subiu em cerca de 370 mil pessoas o contingente que vive com menos de R$ 70 por mês. O governo diz que a diferença está dentro da margem de erro e não mostra uma tendência. O aumento é o primeiro desde que o Ipea iniciou essa série histórica, em 2004.

Os dados não chegaram a ser divulgados pelo governo, mas estão no site do Ipea. A atualização mais recente da página foi feita no dia 31, mas o governo alega que as informações da Pnad estão publicadas desde 19 de setembro.

Em outubro, o diretor de políticas sociais do instituto, Herton Araújo, colocou o cargo à disposição por discordar da decisão do Ipea de não divulgar estudos no período de campanha eleitoral. O profissional planejava divulgar um levantamento com base nos dados da Pnad sobre miséria.

Na época, a direção do Ipea alegou que a medida foi tomada após decisão unânime de seus integrantes. Ontem, o Estado perguntou ao Ipea se essa decisão também foi tomada em anos anteriores, mas não recebeu resposta.

Estatística. A ministra do Desenvolvimento Social, Tereza Campello, afirmou que é “absurda” e “injusta” a acusação de que o governo teria segurado dados por causa da campanha à reeleição da presidente Dilma Rousseff. “Os dados são públicos. Nós temos acesso no mesmo momento que vocês. Qualquer cidadão, qualquer pesquisador que conheça um pouco de estatística pode fazer a conta”, disse. “Não virou notícia antes porque não houve aumento.”

Em 11 de outubro, foi noticiado pelo jornal Folha de S.Paulo levantamento do Instituto de Estudos do Trabalho e Sociedade (Iets) que apontava para a interrupção da queda da miséria no País pela primeira vez desde que o PT chegou ao Planalto, em 2003. A variação do contingente de miseráveis, nesse estudo, era de 0,2 ponto porcentual.

Em relação aos dados do Ipea, o governo atribui a diferença a uma flutuação estatística, dentro da margem de erro do levantamento. “Não é correto afirmar que houve aumento”, disse a ministra. “Se olharmos com cuidado, vamos ver que o desemprego caiu, as ações do Brasil sem Miséria chegam fortemente nesse público. Nenhum outro elemento factual ou dado econômico permite supor que houve aumento.”

Apesar de estar dentro da margem de erro, o pequeno aumento é o primeiro desde que o Ipea iniciou a série histórica para esses dados. Em 2003, o País registrava 23,2 milhões de pessoas na extrema pobreza. Desde então, a queda foi contínua – 60% no acumulado de oito anos, até 2012. O primeiro movimento contrário teria sido no ano passado.

A ministra afirmou que, quando se chega a números tão baixos, é normal que as amostras registrem pequenas variações.

Tudo o que sabemos sobre:
IpeamisériaPnad

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.