André Dusek/Estadão
André Dusek/Estadão

Ministros de partidos aliados admitem inexperiência nas áreas que vão gerir

Em dia de cerimônias de posses, pelo menos três novos integrantes do primeiro escalão afirmam que vão tentar compensar a falta de experiência técnica com ‘capacidade de gestão’ administrativa

Beatriz Bulla, Isadora Peron, Nivaldo Souza, Célia Froufe, Rafael Moraes Moura, O Estado de S. Paulo

03 de janeiro de 2015 | 05h00

BRASÍLIA - O segundo governo da presidente Dilma Rousseff começou a se estruturar ontem, quando 14 novos ministros assumiram suas cadeiras na Esplanada dos Ministérios. A admissão da falta de experiência para os cargos - uma das críticas que os setores fazem a boa parte da nova equipe - marcou alguns discursos de posse. Foi o caso de titulares de pastas como Esporte e Pesca. No caso dos Portos, a admissão foi feita em conversa com o Estado. Por sua vez, o agora ex-ministro da Previdência, Garibaldi Alves, reconheceu que ocupou a pasta nos últimos anos sem conhecimento. 

Ao assumir a chefia do Ministério do Esporte, o deputado federal George Hilton, um dos nomes mais contestados do novo Ministério de Dilma, admitiu não entender “profundamente” do tema. A transmissão do cargo para o deputado federal do PRB, ligado à Igreja Universal, foi esvaziada de atletas e representantes do primeiro escalão do governo. 

Hilton foi apresentado na cerimônia como radialista e apresentador de televisão. Seu perfil no site da Câmara traz outras duas profissões, nenhuma delas ligadas ao esporte: teólogo e animador. 

“Gostaria de tranquilizá-los para dizer: posso não entender profundamente de esportes, mas entendo de gente. Eu sei ouvir as pessoas, sei dialogar”, disse o novo ministro, prometendo usar a habilidade política para gerir a pasta. 

No Ministério da Pesca, o novo titular Helder Barbalho, filho do senador Jader Barbalho (PMDB-PA), se esquivou dos questionamentos sobre a sua experiência no setor. Disse apenas que o Pará é um grande produtor de peixes e que o importante é “ter capacidade de gestão”. “Mais importante do que qualquer atividade em si é ter capacidade de gerir a pasta.” 

Derrotado na disputa pelo governo do Pará pelo tucano Simão Jatene, a indicação de Barbalho para comandar a pasta foi vista como um gesto da presidente Dilma para agradar ao PMDB. 

O senador Jader Barbalho relativizou o fato de o filho não ter experiência na área e negou que as indicações de nomes do PMDB tenham tido como objetivo garantir a fidelidade da sigla ao governo. Aos 35 anos, o mais alto cargo que Helder havia exercido até agora era o de prefeito de Ananindeua, município do interior do Pará. 

Corpo técnico. Também assumiu ontem o novo ministro de Portos, deputado federal Edinho Araújo, do PMDB de São Paulo, que chega ao comando da pasta pela mão do vice-presidente, Michel Temer. Ele disse que reconhece o “ceticismo” do setor em relação ao seu nome, mas pretende vencer a desconfiança do empresariado com a escalação de um corpo técnico competente. 

A falta de conhecimento para lidar com um ministério foi levada com bom humor na Previdência Social, onde o senador Garibaldi Alves - que deixou o posto ontem para o petista Carlos Gabas - lembrou que há quatro anos disse que aceitou o convite para uma pasta que era um “abacaxi”. 

Garibaldi relatou que, quando foi chamado para assumir a pasta, recebeu um “pedido entre aspas” do então ministro-chefe da Casa Civil, Antonio Palocci. “‘Para o bem da sua permanência vai ter que levar o Gabas’. Manda quem pode e obedece quem tem juízo”, contou o ex-ministro, levando o público aos risos. De acordo com ele, Gabas - que ocupava o cargo de secretário executivo do ministério - recebeu a “nobre função” de vigiá-lo no cargo. “E terminei aprendendo alguma coisa.” 

As confissões de inexperiência reforçam o coro dos críticos ao Ministério formado por Dilma. A lista dos escolhidos pela presidente contestados desde a indicação inclui os novos titulares da Agricultura (Kátia Abreu), da Cultura (Juca Ferreira), da Educação (Cid Gomes) e dos Direitos Humanos (Ideli Salvatti). 

Anteontem, na solenidade de posse no Planalto, a peemedebista Kátia Abreu foi vaiada ao lado de Hilton. Considerada por movimentos sociais como uma inimiga da reforma agrária, a nova ministra da Agricultura chegou a dizer que “nem Jesus Cristo” agradou a todos. Os nomes de Juca Ferreira para o Ministério da Cultura e de Ideli para Direitos Humanos também geraram tensão, dessa vez dentro do próprio PT. 

Cid Gomes não foi prestigiado pelas principais lideranças do próprio partido. O presidente nacional do PROS, Eurípedes Júnior, demonstrou descontentamento com o fato de não ter participado das negociações com o Planalto para a indicação do ex-governador do Ceará.

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