Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

Ministros citados por Moro são orientados por Planalto a não darem declarações públicas

General Heleno, Braga Netto e Eduardo Ramos testemunharam Bolsonaro ameaçar Moro de demissão, afirma ex-ministro

Jussara Soares, O Estado de S.Paulo

04 de maio de 2020 | 17h55

BRASÍLIA - Ministros citados por Sérgio Moro, ex-titular do Ministério da Justiça, como testemunhas das acusações sobre interferência do presidente Jair Bolsonaro na Polícia Federal foram orientados pela área jurídica do governo a não dar declarações públicas sobre as reuniões que participaram. Eles devem evitar, portanto, falar à imprensa e nas redes sociais sobre reuniões de que participaram com o ex-juiz da Lava Jato.

Segundo Moro disse em depoimento, Luiz Eduardo Ramos (Secretaria de Governo), Augusto Heleno Ribeiro (Gabinete de Segurança Institucional) e Walter Souza Braga Netto (Casa Civil) estavam presentes quando o presidente ameaçou o demitir por resistir a uma troca no comando da PF. Nesta segunda-feira, 4, o procurador-geral da República, Augusto Aras, solicitou ao ministro Celso de Mello, do Supremo Tribunal Federal (STF), a oitiva dos três.

O trio de ministros militares, segundo depoimento de Moro, presenciaram o encontro realizado no dia 23 de abril. A conversa em que Bolsonaro teria pressionado o então ministro da Justiça para demitir o ex-diretor-geral da PF Maurício Valeixo foi gravada.

Em conversas reservadas, os auxiliares do presidente repetem a narrativa de que todos foram “enganados” pelo ex-ministro da Justiça e relatam estarem desapontados. Eles têm relatado que não esperavam que Moro saísse do governo atirando.

Como informou o Estadão, um dia antes da reunião com os três ministros militares, no dia 22 de abril, o presidente já havia abordado Moro sobre a saída de Valeixo em reunião com todo o primeiro escalão do governo. O ex-juiz da Lava Jato, que tinha status de estrela no governo, se demitiu dois dias depois, acusando o presidente de tentar interferir politicamente na PF para ter acesso a dados de inteligência

As informações foram repassadas à Polícia Federal no longo depoimento que Moro prestou na sede da superintendência da corporação no último sábado, 2, em Curitiba. O motivo da ameaça foi a resistência do ex-juiz em manter Valeixo na chefia da Polícia Federal.

Após o depoimento de Moro, o procurador-geral da República solicitou uma série de diligências no âmbito do inquérito sobre as acusações feitas por Moro a Bolsonaro.

Além de pedir que os ministros Ramos, Augusto Heleno e  Braga Netto prestem depoimento, Aras também solicitou que a deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP) seja ouvida. Zambelli enviou mensagens a Moro pedindo para que aceitasse a substituição no comando da PF se propondo a trabalhar que ele ficasse com a vaga do STF, que abrirá em novembro.

O PGR também quer ouvir os delegados da Polícia Federal Maurício Valeixo, Ricardo Saadi, Carlos Henrique de Oliveira Sousa, Alexandre Saraiva, Rodrigo Teixeira e Alexandre Ramagem Rodrigues, para que prestem informações acerca de "eventual patrocínio, direto ou indireto, de interesses privados do Presidente da República perante o Departamento de Polícia Federal, visando ao provimento de cargos em comissão e a exoneração de seus ocupantes".

No documento, o PGR requer que as diligências e o agendamento das audiências se dê em até cinco dias após a intimação dos citados.

Além das oitivas, Aras pediu ao Supremo que determine à Secretaria-Geral da Presidência cópia do vídeo da reunião realizada entre o presidente, o vice-presidente, ministros de Estado e presidentes de bancos públicos no último dia 22 no Palácio do Planalto, ‘ no intuito de confirmar a afirmação de que o primeiro teria cobrado, de acordo com o ex-titular da Pasta da Justiça, “a substituição do SR/RJ, do Diretor Geral e relatórios de inteligência e informação da Polícia  Federal”‘.

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