Ministro Waldir Pires tenta se isentar da crise aérea

O ministro da Defesa, Waldir Pires, pediu indiretamente, em tom de desabafo, que parem de responsabilizá-lo pela crise do setor aéreo, repassando a questão para a Aeronáutica. Ele defendeu, nesta quarta-feira, 11, a desmilitarização do sistema de controle do tráfego aéreo e questionou os interesses que estariam por trás da crise. Durante audiência na Câmara dos Deputados, Pires deu declarações incisivas, fora de seu estilo habitual, e fez um discurso firme sobre as causas do acidente com um avião da Gol ocorrido em setembro do ano passado e seus desdobramentos ao longo dos últimos seis meses. O líder dos Democratas (ex-PFL), deputado Onyx Lorenzoni, acusou Pires de ter colocado "milhões de passageiros em situação de completa humilhação". "Em que país europeu o ministro da Defesa é gestor de tudo? Onde está na Constituição que o Ministério da Defesa tem competência para tudo? A competência é do Comando da Aeronáutica", disse Pires. O clima de disputa promovido pela oposição na audiência já é um sinal de como funcionará uma eventual CPI do Apagão Aéreo. Para Pires, a CPI é problema do Congresso "mas não pode ser instrumento de luta política, muito menos de politicagem".Segundo Pires, os problemas que estão ocorrendo no tráfego aéreo não dependem só do comandante da Aeronáutica, dele ou da equipe. E elogiou ainda o trabalho executado pela Força Aérea Brasileira no controle do tráfego aéreo brasileiro.Desmilitarização O ministro defendeu de forma contundente a transferência do controle do tráfego aéreo para a administração civil argumentando que em quase todos os países do mundo os militares já não atuam neste setor. Já o comandante da Aeronáutica, brigadeiro Juniti Saito, afirmou na audiência que não é simples separar esse tipo de atividade e que o problema atual é a falta de controladores e não a militarização. "Não somos nem a favor nem contra a desmilitarização, estamos cumprindo uma missão constitucional", disse o brigadeiro. Saito disse que não passa de "maldade" a alegação de controladores de que existe "buraco negro" no espaço aéreo brasileiro. "Dá a impressão que isso é terra de ninguém e não é verdade. Buraco negro não existe mesmo quando a aeronave fica fora do controle do radar", afirmou, explicando que nesses casos usa-se o rádio. Segundo Saito, o equipamento responsável pelo controle aéreo não é obsoleto e a Aeronáutica está formando novos profissionais para atuar no sistema.Acidente da GolPires estendeu aos controladores de vôo o mesmo tom de veemente defesa que fez à atuação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no episódio do motim do último dia 30. Pires defendeu ainda os controladores das acusações de responsabilidade no acidente entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em 29 de setembro. Disse ter ficado "indignado "com a repercussão na imprensa dos Estados Unidos, que fez ataques fáceis e de forma mesquinha ao controle do tráfego aéreo brasileiro.Em seguida, exaltado, Pires lembrou que os pilotos do Legacy descumpriram o plano de vôo que estava previsto. "Este plano de vôo foi esquecido? Por que o transponder não estava ligado", indagou o ministro, que chegou a bater com a mão na mesa.E emendou: "Por que se pretende atribuir a nós a responsabilidade do acidente?" Ele rebateu também o que chamam de demora nas investigações, alegando que elas estão sendo conduzidas no tempo adequado e que é assim que acontece em todos os lugares do mundo porque não é uma investigação criminal. PrivatizaçãoO ministro Waldir Pires criticou a proposta de privatização do controle de tráfego aéreo. Segundo ele, a proposta tem interesses incompatíveis com os interesses do País. Novamente bastante irritado, o ministro negou que tenha sentado num bar a beber cerveja como militares controladores. E disse que, como ministro de Estado, chamou para uma conversa o presidente do sindicato dos controladores civis, que é uma entidade legal e reconhecida. O ministro não citou, no entanto, o encontro que teve com os membros da associação dos controladores de tráfego aéreo em 2 de novembro, quando houve o primeiro apagão aéreo.Segundo ele, a tendência no momento é marchar para o que o mundo tem, que é o controle de tráfego aéreo civil. (Com Ana Paula Scinocca e Tânia Monteiro)

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