Ministro ''vitamina'' Esporte e área vira feudo do PC do B

Partido comanda 200 secretarias municipais e estaduais do setor pelo País

Pedro Venceslau e Julia Duailibi, O Estadao de S.Paulo

17 de janeiro de 2009 | 00h00

Discretamente, Orlando Silva, o único ministro comunista do governo Lula e o mais jovem da Esplanada, tem promovido uma "verticalização" do Ministério do Esporte em todo o País, num momento em que a pasta ganha importância em razão da Copa do Mundo de 2014 e da candidatura do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas de 2016.Sobrevivente do "episódio da tapioca" (quando se descobriu que usou o cartão corporativo do governo para pagar R$ 8 numa tapiocaria - na esteira do escândalo revelado pelo Estado há um ano, que derrubou a ministra Matilde Ribeiro), Silva, 37, iniciou a construção de uma rede de influência política, alcançando 200 Secretarias Estaduais e Municipais de Esporte pelo Brasil, segundo estimativa do próprio partido. Esse número era inexpressivo antes do governo Lula."Até para nós foi uma descoberta (o potencial político e administrativo do ministério). Em 2003, quando Lula começou a montar o governo, ninguém o queria, nem nós. Agora virou muito cobiçado. Até o PMDB quer", disse o presidente do PC do B, Renato Rabelo.Não é à toa. O orçamento do ministério cresceu quase 300% em sete anos. A previsão é de que em 2009 alcance R$ 1,4 bilhão. Além disso, eventos como os Jogos Pan-americanos, a Copa e a candidatura para as Olimpíadas dão uma boa dose de marketing à pasta que, até 2003, era acoplada ao Turismo.Silva começou a viajar o Brasil alimentando a "verticalização" por meio de contatos com prefeitos e governadores. "Tenho ouvido de muitos prefeitos essa expressão. Como a base de Lula é grande, eles preferem ter um secretário do mesmo partido do ministro. É uma questão de afinidade", declarou Silva ao Estado. O PC do B ganhou capilaridade pelo País, ocupando as Secretarias de Esporte da Bahia, de Pernambuco, do Paraná e de cidades como Nova Iguaçu, onde o prefeito é o ex-comunista Lindberg Farias (PT). O ministro conta que na maioria dos casos foi consultado na indicação.CUNHADOEm Campinas, seu cunhado, Gustavo Petta, que é ex-presidente da UNE, acaba de ser nomeado pelo prefeito, Dr. Hélio (PDT), secretário de Esportes. Vai gerir os três projetos financiados pelo ministério na cidade. "O PC do B é, hoje, reconhecido por atletas e gestores. Isso dá muita visibilidade para o partido", declarou Petta. O resultado dessa ação, apontada pela oposição como aparelhamento, é uma maior importância político-eleitoral para o PC do B em razão de obras e projetos sociais - o carro-chefe do ministério, o programa Segundo Tempo, que estimula o esporte nas escolas, já chegou a 3 milhões de crianças.Silva formou ainda na cúpula do ministério um cordão de aliados, composto por integrantes do PC do B e ex-líderes do movimento estudantil, do qual fez parte. O secretário-executivo, Wadson Ribeiro, o chefe-de-gabinete, Waldemar Silva e Souza, e o secretário nacional de Esporte Educacional, Julio Filgueira, são exemplos disso.ARRANHÕESApesar da bem-sucedida articulação política - ele assumiu a pasta em 2006, após Agnelo Queiroz deixar o ministério para se candidatar ao governo do Distrito Federal, e ficou com a cadeira -, acumulou arranhões na gestão. Segundo relatório do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre os Jogos Pan-americanos, o orçamento inicial de cerca de R$ 390 milhões superou R$ 3 bilhões em razão da falta de planejamento do Ministério do Esporte.Formado no "forno do partido", como diz Rabelo, Silva faz parte hoje da geração dos "comunistas de sucesso", como Manuela d?Ávila, deputada mais votada do Rio Grande do Sul, e Luciana Santos, ex-prefeita de Olinda.Ao se fortalecer como um dos principais líderes do partido - ao lado de caciques como Aldo Rebelo (SP) -, Silva criou condições para se lançar candidato a deputado em 2010. Será a grande aposta do partido para puxar votos. Para isso, deve contar com uma ajuda extra. A mulher, a atriz Ana Cristina Petta, vai atuar na próxima novela da Rede Record. FRASEOrlando SilvaMinistro do Esporte?Como a base de Lula é grande, eles (prefeitos e governadores) preferem ter um secretário do mesmo partido do ministro. É uma questão de afinidade"Renato RabeloPresidente do PC do B"Em 2003, quando Lula começou a montar o governo, ninguém o queria (o Ministério do Esporte), nem nós. Agora virou muito cobiçado. Até o PMDB quer"

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