Ministro quer nova busca por ossadas no Araguaia

Vannuchi levou a Lula proposta de enviar ?dezenas? de pessoas, incluindo militares, na maior missão já feita para encontrar corpos de guerrilheiros

Jamil Chade, GENEBRA, O Estadao de S.Paulo

02 de março de 2009 | 00h00

O ministro Paulo Vannuchi, da Secretaria Especial dos Direitos Humanos, pretende organizar ainda este ano a maior missão já promovida pelo governo à região do Araguaia para, mais uma vez, tentar encontrar ossadas de guerrilheiros mortos na ditadura militar. Desta vez, porém, ele quer reunir "dezenas de pessoas", com apoio das Forças Armadas, e espera que o governo gaste "o que for preciso".Em entrevista ao Estado, Vannuchi disse que o assunto já foi levado ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Informou ainda ter pedido a Lula que, como comandante supremo das Forças Armadas, faça declaração pedindo desculpas pelos crimes cometidos pelos militares. "O governo precisa dar uma demonstração nítida de empenho em dar solução a esse tema."O Araguaia, na época ainda parte do território de Goiás, foi palco de um movimento de esquerda severamente reprimido nos anos 70 pelos militares. Os militantes do PC do B começaram a chegar em 1966, com o sonho de iniciar uma revolução a partir do campo, como ocorrera na China e em Cuba. Calcula-se que foram mortos cerca de 80 militantes nas operações de repressão, que duraram até 1974.Segundo Vannuchi, os gastos com a busca pela verdade do que ocorreu no regime militar correspondem a 5% do orçamento da secretaria. O ministro, que está em Genebra para o Conselho de Direitos Humanos da ONU, tenta convencer Lula de que a missão precisa ocorrer este ano, fora de período eleitoral. Além disso, as escavações devem vir antes de setembro, quando começa o período das chuvas. Em dezembro de 2006, na estação mais úmida, o governo custeou uma viagem ao Araguaia, mas nada encontrou."Precisaremos de algumas dezenas de pessoas, inclusive do Ministério da Defesa, da Justiça, familiares e militares. O Exército e a Aeronáutica serão fundamentais", afirmou. "O governo precisa gastar o que for preciso para isso. Não sei se vamos localizar alguma coisa, mas precisa ser feito", disse.A ideia, porém, é que a missão seja composta principalmente por técnicos, como legistas e geólogos. Há três meses, Vannuchi esteve em Madri para conhecer as tecnologias usadas na busca de corpos da Guerra Civil espanhola, nos anos 30."Não se pode ficar um ou dois dias. A questão é de semanas. As dificuldades serão enormes", disse. "Mas, se acharmos um fêmur que seja, já teremos feito o que nos cabe. Se trata de uma busca de agulha no palheiro, mas precisa ser feita."CAMPANHASegundo Vannuchi, o governo prepara várias medidas referentes ao direito à memória dos cidadãos, que serão divulgadas no dia 12. Uma delas será a publicação de um edital que dará seis meses para que qualquer pessoa entregue ao Arquivo Nacional documentos da ditadura. O ministro de Comunicação Social, Franklin Martins, estaria empenhado em lançar uma campanha publicitária sobre os desaparecidos políticos. Ela iria ao ar em horário nobre, com apelos de parentes por informações sobre as vítimas. "Isso pode desencadear novidades."Vannuchi garante que tem tido conversas "civilizadas" com representantes das Forças Armadas sobre o assunto. Mas quer que sejam dadas mais aulas sobre direitos humanos nas academias militares. "Acredito que, se houvesse algum dia um mandado de busca de arquivos em quartéis generais do Brasil, teria gente que se oporia a isso", afirmou. Ele rejeita a ideia de que esteja procurando provas contra os militares que tenham cometido crimes durante a ditadura. "O que menos importa agora é se põe ou não alguém na cadeia", garantiu.

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