Ministro prevê construção de sete usinas nucleares no Brasil

O ministro da Ciência e Tecnologia, Sérgio Rezende, defendeu em entrevista à BBC Brasil um plano nuclear para o Brasil que prevê a construção de até sete usinas nucleares.Rezende afirmou que quer ver o projeto, que incluiria duas instalações no Nordeste, aprovado ?em todas as instâncias até o fim do primeiro semestre deste ano?. ?O Plano Nacional de Energia Nuclear propõe sete usinas nucleares (?) Esse plano começa com a decisão de retomar a construção de Angra 3 e fazer então um escalonamento para que, em média, a cada dois, três anos seja implantada uma nova usina. Então, é um plano para dez, 15 anos.?O ministro afirma que, com isso, pretende ampliar a participação da energia nuclear na matriz energética. Segundo ele, a participação no Brasil é hoje da ordem de 1% a 2%.?O ideal é que ela fosse mais próxima de 5%.? ?Não defendo que ela (a energia nuclear) seja prioridade número um?, disse o ministro. ?Estou defendendo que ela tenha alguma prioridade (?) a energia nuclear tem que ser considerada e colocada na matriz energética brasileira. Ela não pode mais ser encarada como patinho feio."Polêmica Nos planos do ministro, está a construção de duas usinas nucleares às margens do Rio São Francisco, cujas águas passam por hidrelétricas que abastecem a região Nordeste de energia."Não dá para fazer nenhuma outra hidrelétrica no São Francisco, mas a região vai continuar crescendo, precisando de energia. As águas do rio podem ser usadas para refrigerar um sistema de usinas nucleares de menor porte. É um plano perfeitamente viável", disse o ministro.Para começar a valer, explicou o ministro, a proposta nuclear precisa passar pelo Conselho Nacional de Política Energética (CNPE), do qual participam vários ministérios, pelo Presidente da República e pelo Congresso. Apesar de se dizer confiante, o ministro admite que não faltará polêmica às discussões sobre o tema. "Polêmica não vai faltar. Mas isso era um tabu até um tempo atrás e, cada vez mais, há uma percepção de que a energia nuclear é uma fonte viável de energia", disse.Sobre os custos, Rezende disse que o "renascimento" no mundo da área nuclear, com a construção de novas usinas, vai baratear o custo da tecnologia.Além disso, acidentes do passado, tornaram mais eficiente a segurança em torno das usinas, segundo ele. Na comparação com a energia hidrelétrica, o ministro afirmou que ela continuará sendo a principal fonte no país. Destacou, porém, o que ele chamou de "desvantagens" em relação à energia nuclear."A energia hidrelétrica está ficando cada vez mais cara. Outra desvantagem é que a fonte, geralmente, está distante dos centros consumidores. Já as usinas nucleares podem ser construídas perto dos grandes centros", disse.Urânio O ministro disse também que a inauguração oficial da produção de urânio em escala industrial na fábrica de Resende (RJ), com a presença do presidente Lula, deve acontecer em abril, depois dos vários adiamentos.Se os planos do governo se concretizarem, o urânio enriquecido produzido pelas Indústrias Nucleares do Brasil (INB) será suficiente para suprir 60% das necessidades de Angra 1 e 2 em 2010."O que foi adiada é a inauguração formal pelo Presidente da República. A produção já começou, porém não em grande quantidade", explicou o ministro.Ele negou que os adiamentos tenham alguma relação com uma tentativa do governo de se distanciar da atual polêmica envolvendo o programa nuclear do Irã."Houve, simplesmente, um problema de agenda do presidente. Não há nenhuma suspeita em relação à atitude brasileira. Já temos o aval da Agência Internacional de Energia Atómica, e o que o Brasil fez já foi mais do que suficiente", disse.Uma pesquisa encomenda em 2004 pelo Greenpeace ao ISER - Instituto de Estudos da Religião - indicou que 82,3% dos brasileiros são contrários às usinas nucleares no país.Transgênicos O ministro comentou também outro assunto polêmico: a escolha do presidente da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio), que terá a palavra final sobre, por exemplo, o cultivo de transgênicos no Brasil.A escolha de Walter Colli, professor da Universidade de São Paulo, para presidir a comissão foi criticada por ONGs. Representantes de algumas organizações dizem que ele defende abertamente os transgênicos e que não teria isenção suficiente para ocupar o cargo."Walter Colli é uma pessoa extremamente respeitada no mundo científico. Qualquer pessoa que não tivesse um perfil ambientalista, contra os transgênicos, seria criticada. Ele está sendo bombardeado injustamente", disse, acrescentando que "os transgênicos são uma realidade que veio para ficar".Para o ministro, os críticos têm boas intenções, mas estão mal assessorados. "Os mesmos setores que são contra os transgênicos não querem ouvir falar em energia nuclear. Normalmente, são pessoas que têm a melhor das intenções, mas que, normalmente, não têm em torno delas pessoas com formação científica e experiência internacional em outras áreas", criticou o ministro.Sérgio Rezende está em Londres, onde integra a comitiva que acompanha o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em visita de estado à Grã-Bretanha.Ele é doutor em Física pelo MIT (Massachusetts Institute Of Technology) e formado em Engenharia Eletrônica na PUC-Rio (Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro).

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