Ministro interino da Defesa é considerado conciliador, mas firme e pragmático

Ideia do presidente Temer é manter Joaquim Silva e Luna pelos próximos dez meses de seu governo

Tânia Monteiro, O Estado de S.Paulo

26 Fevereiro 2018 | 20h12

Conciliador, mas firme e pragmático. Essas são algumas das características do perfil do novo ministro da Defesa, o general-engenheiro que passou boa parte da carreira construindo estradas na Amazônia, Joaquim Silva e Luna. Embora o nome de Silva e Luna tenha sido anunciado como interino pelo Palácio do Planalto, a ideia do presidente Michel Temer é de mantê-lo no cargo pelos próximos dez meses que restam ao seu governo.

Reservado, mas sem qualquer temor de expressar todas as suas opiniões, mesmo que divergentes das autoridades com quais está tratando, o general será o primeiro militar a assumir a Defesa. Está há quatro anos no Ministério da Defesa, para onde foi levado pelo ministro petista Celso Amorim, quando deixou a chefia do Estado Maior do Exército, em 2014, e passou para a reserva. De lá para cá, foram quatro ministros: Amorim, Jaques Wagner, Aldo Rebelo e Raul Jungmann.

Respeitadíssimo não só entre militares, mas também entre civis com os quais conviveu, Silva e Luna está há dois anos e meio como número dois da Defesa. Mesmo muito atribulado com as suas funções, o general Silva e Luna não abandonou o seu lado humano e as lembranças do início de vida difícil, saindo ao lado da família, em várias das noites de Brasília, para distribuir sopão para a população carente de rua.

Filho de agricultores da pequena Barreiros, em Pernambuco, o general Silva e Luna, 69 anos, mostrou a sua discrição ao não contar sequer para a mulher, Nádia, que poderia assumir o Ministério da Defesa. Ela soube da indicação do marido, pela imprensa. Considerado brilhante pelos colegas e com enorme jogo de cintura, embora defenda suas ideias com fervor, o novo ministro, imediatamente ao ser promovido a quatro-estrelas, em 31 de março de 2011, rompeu uma tradição no Exército, com a sua nomeação para ser chefe do Estado Maior da Força Terrestre, segundo cargo da hierarquia da tropa.

Tradicionalmente, a função sempre foi ocupada pelo oficial-general mais antigo. Ele, mais moderno do Alto Comando, assumiu o posto nomeado pelo então comandante do Exército, general Enzo Peri, a quem sempre foi muito ligado e, no cargo, implementou uma transformação na Força, nas áreas administrativa e operacional.

O novo ministro sabe que enfrentará críticas por ser um militar em um posto até agora, desde a sua criação, em 1999, reservado a civis. Mas em conversas com amigos, o general Silva e Luna refuta a tese de militarização da pasta e entende que a solução foi circunstancial e que, no momento, servirá para separar a Segurança Pública da Defesa, que são coisas distintas, mas que precisarão, neste momento, trabalhar lado a lado.

Durante as inúmeras reuniões das quais participou ao longo dos últimos anos, seja como chefe do Estado Maior do Exército, seja no MD, o general Silva e Luna, por inúmeras vezes, criticou o emprego excessivo das Forças Armadas em ações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO).

No momento, no entanto, considerou nas avaliações apresentadas em reuniões internas, que a medida era "inevitável", lembrando que a população clama por uma solução para o problema de segurança pública, particularmente, no Rio de Janeiro. Nas suas observações sobre emprego das Forças ele fala a mesma linguagem do atual comandante do Exército, general Villas Bôas, e faz questão de justificar que as próprias forças policiais perdem estímulo e se sentem desvalorizadas quando as tropas federais são convocadas porque parece que elas não têm competência para desempenhar suas funções quando, em muitos casos, o que faltam são meios para elas executarem as suas missões.

Ainda nestas conversas, o general sempre ressalva que, como acontece em toda área, é preciso fazer um saneamento nos setores, tirando quem não exerce a função com dignidade. Para ele, o momento hoje é de desespero e o que a sociedade quer é uma solução para o problema da segurança pública, não importando se quem vai resolver o gravidade da situação, de fato, é a Polícia Militar ou são as Forças Armadas. A população quer é ter segurança e ver o fim da violência.

Silva e Luna entrou para o Exército em 10 de fevereiro de 1969, na Academia Militar das Agulhas Negras (AMAN) e foi declarado aspirante-a-oficial de Engenharia dezembro de 1972. Ele se considera um "matuto do interior de Pernambuco", mas que lê muito e já escreveu dois livros de cunho filosófico: "Depois do Encontro a Procura" e "Inventando a si mesmo".

Ele possui pós-graduação em Política, Estratégia e Alta Administração do Exército e em Projetos e Análise de Sistemas, tem mestrado em Operações Militares e doutorado em Ciências Militares, além dos cursos de Guerra na Selva e de Combate Básico das Forças de Defesa de Israel. Este último, realizado no Instituto Wintergate-Israel. O general também participou da Missão Militar Brasileira de Instrução no Paraguai.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.