Edilson Rodrigues / Agência Senado / AFP
Edilson Rodrigues / Agência Senado / AFP

Ministro exibe antigo vestuário do governo federal; leia análise

Queiroga abandonou o manequim de ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia para driblar senadores e condescender com a inutilidade da hidroxicloroquina

Mário Scheffer*, O Estado de S.Paulo

07 de maio de 2021 | 05h00

Um dia após o presidente Jair Bolsonaro atacar novamente a China, sem a qual haveria hoje um “apagão” da já hesitante vacinação no Brasil, o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, abandonou o manequim de ex-presidente da Sociedade Brasileira de Cardiologia, entidade conduzida há 77 anos pela evidencia científica, para driblar senadores e condescender com a inutilidade da hidroxicloroquina.

Assombrações do ministro antecessor – um país rumo a meio milhão de mortos, o Sistema Único de Saúde (SUS) colapsado e sem vacinas – não mobilizaram respostas objetivas do depoente, que usou a seu favor os poucos 42 dias no cargo. 

O mesmo ministro que afirmou aos senadores se guiar pelo tripé vacinação, máscaras e distanciamento social, e que também defendeu a autonomia de Estados e municípios em lançar mão de medidas mais restritivas como o “lockdown”, condenou a flexibilização das regras de patentes, atualmente apoiada pelos Estados Unidos como forma de ampliar o acesso a vacinas em países arrasados pela covid, como o Brasil.

Torcidas por marcas de vacinas compõem o pano de fundo da CPI da Covid. Insinuações antecipam o uso de respostas à pandemia do novo coronavírus como credencial eleitoral: o carimbo de João Doria na Coronavac, o mérito do governo federal com a vacina da AstraZeneca entregue a conta-gotas pela Fiocruz e a aposta na polêmica Sputinik como marca de governos estaduais do PT, do Consórcio Nordeste e do pré-candidato Lula.

Ficou sem resposta quantas doses novas de vacinas já foram, afinal, contratadas pelo Ministério da Saúde. Três números divergentes – 280 milhões, 430 milhões e 560 milhões – pulularam na CPI como se não importassem quantas vidas teriam sido salvas pela maior diversidade de imunizantes, pelas compras antecipadas e entregas do prometido.

Que um outro cardiologista ministro possa inspirar o atual. Adib Jatene, mesmo em governo adverso, foi intransigente na defesa da vida e de recursos excepcionais para o SUS. A CPI da Covid segue desnudando um país à margem de um mundo que avança em saídas para a crise sanitária.

*PROFESSOR DA FACULDADE DE MEDICINA DA USP

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