Ministro é ''''co-autor'''' do esquema, afirma Souza

Procurador diz não se sentir constrangido pela demissão de Mares Guia

Brasília, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

O procurador-geral da República, Antônio Fernando Souza, classificou o ministro demissionário Walfrido Mares Guia como co-autor do esquema que, segundo sua denúncia, alimentou com dinheiro público a campanha eleitoral do senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG) ao governo de Minas em 1998. "O ministro é co-autor porque participou dos atos que engendraram esse esquema de desvio de recursos", declarou o procurador. "A imputação ao ministro é de ter participado em co-autoria dos atos que direcionaram o desvio de dinheiro."Souza também afirmou que não se sente constrangido por ter involuntariamente obrigado Mares Guia a deixar o cargo. "Não é problema meu. Faço a denúncia sobre fatos que ocorreram no passado, é dever meu, e as conseqüências são as da lei, no interesse de cada um", observou. Além do ex-subsecretário de Comunicação Eduardo Pereira Guedes Neto, outro nome envolvido com o mensalão mineiro é ligado ao atual governador de Minas, Aécio Neves. Danilo de Castro, ex-deputado, é secretário de Governo. Castro integra uma segunda etapa das investigações que, a pedido do procurador-geral, deverá ser conduzida pelo Ministério Público de Minas. Ele é apontado como avalista de um dos empréstimos firmados pela SMPB no Banco Rural em 25 de novembro de 2004, ou seja, já na gestão de Aécio. "Coincidentemente, as empresas de Marcos Valério venceram licitações para a publicidade do governo do Estado de Minas Gerais, justamente com Danilo de Castro como secretário de Estado responsável pelo certame", afirmou o procurador.Rogério Tolentino, sócio de Marcos Valério, também deverá ser investigado. A Polícia Federal apurou que ele recebeu dinheiro de integrantes do esquema quando era integrante do Tribunal Regional Eleitoral de Minas e teria dado decisões favoráveis aos interesses eleitorais de Azeredo. Segundo o procurador, estão prescritos eventuais crimes eleitorais para os políticos que integravam a lista com supostas doações de campanha - entre eles o governador Aécio Neves, na época candidato à Câmara dos Deputados. Souza evitou considerações políticas, mas deixou clara sua convicção sobre o esquema. "Desde que ingressei no Ministério Público, minha conduta é de só formular acusações das quais estou convencido. Agora, esse convencimento precisa ser objeto de análise pelo Judiciário, que é o órgão competente dentro do Estado de Direito para confirmar ou não o acerto dessa acusação", declarou.Com alguma relutância, ele fez algumas comparações entre o esquema do mensalão montado por Marcos Valério com o PT, durante o governo Lula, e o que teria beneficiado o senador tucano em Minas: "O procedimento do desvio e o passo-a-passo do dinheiro são os mesmos. Mas os fatos não são exatamente iguais, os objetivos são diferentes. É só fazer uma leitura (das denúncias)."O procurador ressaltou que há, ainda, uma diferença fundamental entre os dois esquemas: no caso do financiamento eleitoral de Minas, há evidências de desvio de recursos públicos exclusivamente. Já no mensalão petista, além de recursos públicos, haveria ainda trânsito de dinheiro de origem privada. Mas nos dois casos, afirma, são "claros" os indícios de uso do dinheiro público.Souza também explicou por que não enquadrou os 15 denunciados nos crimes de formação de quadrilha e corrupção, como fez no caso do mensalão petista. "A denúncia só pode ser feita se apoiada em elementos probatórios. Não posso inventar situações de fato. O que resultou desse caso foi a denúncia ofertada", disse. SÔNIA FILGUEIRAS e FELIPE RECONDO

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.