Beto Barata/AE-14/2/2008
Beto Barata/AE-14/2/2008

Ministro dos Transportes cai após ser abandonado por Dilma no auge da crise

Suspeitas de irregularidades e falta de apoio do Palácio do Planalto derrubam Alfredo Nascimento, o terceiro a perder lugar na Esplanada em apenas seis meses da atual gestão

Denise Madueño e Christiane Samarco, de O Estado de S.Paulo

06 de julho de 2011 | 23h00

BRASÍLIA - A presidente Dilma Rousseff foi quem deu o argumento que faltava para que Alfredo Nascimento tomasse a iniciativa de se demitir, na quarta-feira, 6, facilitando a vida do Palácio do Planalto para concluir a operação de troca de comando no Ministério dos Transportes iniciada no fim de semana com a saída de quatro subordinados do ministro. Quando Nascimento soube que Dilma convocou um técnico para discutir assuntos da pasta, percebeu que estava na cadeira, mas que já deixara de ser o ministro de fato e entregou a carta de demissão.

 

Com a saída de Nascimento, a terceira queda de um ministro em pouco mais de seis meses de governo, Dilma mantém a relação com o Congresso como o ponto mais vulnerável até agora da sua gestão.

 

Dilma convocou o secretário executivo dos Transportes, Paulo Sérgio Passos, que assumiu interinamente a pasta, e a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, para uma reunião, no Palácio do Planalto, na qual o assunto em discussão era a malha ferroviária.

 

Enquanto seu subordinado se reunia com a presidente, Nascimento foi para a sede do PR redigir o texto que seria entregue ao chefe de gabinete do Planalto, Giles Azevedo. Nascimento estava na sede do partido com o deputado Valdemar Costa Neto, secretário-geral do PR, e apontado como um dos comandantes do suposto esquema de cobrança de propina em contratos da pasta.

 

A situação do ministro já se mostrava delicada pela manhã. A ministra de Relações Institucionais, Ideli Salvatti, pediu uma reunião com o comando da bancada do PR na Câmara. O pedido inesperado fez o líder, Lincoln Portela, improvisar um almoço em sua casa com parte da bancada e a ministra. No encontro, Ideli sugeriu que Nascimento antecipasse sua ida ao Senado para explicar as denúncias do suposto esquema de corrupção no ministério. O acerto anterior feito com o próprio ministro era para que os depoimentos fossem na semana que vem.

 

A pressa do Planalto foi motivada pela divulgação de novas reportagens com revelações de enriquecimento do filho do ministro, Gustavo Pereira, e da construção em Brasília de uma mansão do chefe de gabinete do ministério exonerado depois das denúncias do final de semana, Mauro Barbosa.

 

Um emissário do PR foi levar a decisão da nova data do depoimento a Nascimento, que, no entanto, estava desaparecido do ministério desde a manhã de quarta-feira. À tarde, o ministro convocou Portela e Luciano Castro (PR-RR) à sede do partido para dar conhecimento aos deputados de sua decisão. Os senadores foram avisados quando estavam reunidos com Ideli e com o secretário-geral da Presidência, Gilberto Carvalho, no Palácio do Planalto. "As denúncias atingiram minha família. Volto ao Senado para defender a mim e a minha família", disse Nascimento em telefonema ao líder do PR, senador Magno Malta (ES), ao avisar da carta de demissão.

 

"O ministro Alfredo Nascimento não merecia esse desenlace. Ele serviu ao governo do presidente Lula e apresentou resultados antes e agora no governo da presidente Dilma. Manteremos nossa aliança com a presidente e vamos trabalhar para superar a crise", disse Luciano Castro. Além da defesa de Nascimento, o PR mandou um recado ao governo dizendo que a escolha do sucessor no cargo terá de passar necessariamente pelo ex-ministro, que reassumiu ontem mesmo a presidência do PR.

 

Na nota informando a demissão, Nascimento informou que vai encaminhar requerimento à Procuradoria-Geral da República pedindo abertura de investigação e autorizando a quebra dos seus sigilos bancário e fiscal.

 

Substituição. A cúpula partidária reagiu também contra a disposição de Dilma de convencer o PR a aceitar a indicação de Paulo Sérgio Passos para voltar a ocupar a cadeira de Nascimento. Passos, agora como secretário executivo e ministro interino, exerceu o cargo quando Nascimento se afastou do ministério para a campanha eleitoral em 2010.

 

O argumento usado por Dilma é que, se Passos serviu para substituir Nascimento por seis meses, não há por que descartá-lo agora. "Talvez a solução tenha de ser mais política do que técnica. É um momento delicado", disse Castro. Lincoln Portela descartou a hipótese de efetivá-lo: "Ele é um interino", disse.

 

Além de Passos, outros nomes foram cogitados pelo PR durante o dia par substituir Nascimento. O do ex-senador César Borges (PR-BA) e o do deputado Luciano Castro. O governo chegou a cogitar entregar a pasta para o senador Blairo Maggi (MT), insatisfeito com as perdas de seus postos no Executivo. Seus indicados para a Secretaria Executiva do Ministério das Cidades e para a Diretoria-Geral do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) perderam os cargos.

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