Ministro do STJ acusado de dar habeas-corpus para traficantes depõe

O ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ) Vicente Leal vai depor nesta segunda-feira na comissão de sindicância que apura seu suposto envolvimento na concessão de habeas-corpus em favor de criminosos. Apesar de não ser citado em nenhuma conversa telefônica de uma série gravada pela Polícia Federal com autorização da Justiça, Leal é apontado em relatório da PF como suspeito de favorecer o traficante Leonardo Dias Mendonça, o Léo. Na semana passada, outro ministro do STJ, Franciulli Neto, reforçou as pressões para que Leal seja afastado até que sejam esclarecidas as suspeitas contra ele. O pedido de Franciulli, feito durante uma sessão da Corte Especial do STJ, que reúne 21 dos 33 ministros, trouxe a público uma crise que vem corroendo o tribunal e abalou a situação de seu presidente, o ministro Nilson Naves. Franciulli ameaçou deixar o plenário, ao ver rejeitado um pedido para que fosse registrada em ata sua manifestação de apoio a um artigo no qual o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), Rubens Approbato Machado, pedia o afastamento de todos os suspeitos até o final da apuração. Sem apontar nomes, Franciulli disse que há mais de uma pessoa sob suspeita, ressaltando não saber se ela estava sendo ou não investigada pela comissão. O ministro fazia uma referência à mulher do presidente do Tribunal, Adélia Naves, funcionária do tribunal cujo nome foi citado numa gravação feita pela PF em 18 de abril do ano passado. No diálogo, Sílvio Rodrigues da Silva, ligado a Dias Mendonça, conversa com outra pessoa, identificada como João Lima, sobre um processo administrativo que pretendia abrir no tribunal. O caso era de uma construtora do Tocantins que requeria ao governo local o pagamento de R$ 17 milhões, mas o processo não foi levado adiante, conforme demonstraram outras gravações realizadas pela PF até o fim de abril de 2002. Na gravação do dia 18, Lima diz conhecer a mulher do presidente do STJ. Trata-se da única referência a Adélia em quase 400 conversas gravadas pela polícia. Assessores do STJ informam que a cúpula do tribunal não considera necessário abrir uma investigação sobre as atividades de Adélia, como vem fazendo no caso do ministro Vicente Leal. Justificam que a PF não conhece detalhes sobre Lima, além de não haver outra menção sobre a mulher de Nilson Naves em todas a investigações, inclusive no relatório conclusivo redigido pela área de inteligência da Polícia Federal. Adélia trabalha atualmente na Associação de Apoio aos Ministros Aposentados, no primeiro andar do STJ. Na conversa com Sílvio Rodrigues, Lima diz que ela é a "chefona dos aposentados" e trabalha no último andar do prédio. Nilson Naves garante que nem ele nem a mulher conhecem João Lima. Ambos se julgam injustiçados.

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