Valter Pontes/AE
Valter Pontes/AE

Ministro diz que assessor é ‘de confiança’, mas nega ter mandado alterar parecer

Negromonte admitiu em entrevista à rádio ‘Estadão ESPN’ que o chefe de gabinete solicitou a revisão da nota técnica que abriu caminho para a implantação do projeto de VLT em Cuiabá

O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2011 | 22h50

O ministro das Cidades, Mário Negromonte (PP), admitiu na sexta-feira, 25, em entrevista à rádio Estadão ESPN, que seu chefe de gabinete, Cássio Peixoto, é "de confiança", mas negou ter dado ordens a ele para que fosse alterada a nota técnica número 123/2011, fraude que respaldou a implantação do projeto de Veículo Leve sobre Trilhos (VLT) em Cuiabá, avaliado em R$ 1,2 bilhão, para a Copa de 2014.

 

Negromonte disse ainda que não teve conhecimento do parecer da Controladoria-Geral da União (CGU) que reprovou o projeto de VLT e alertou que ele não será concluído antes de 2014. O parecer da CGU foi enviado ao secretário nacional de Transporte e Mobilidade Urbana do Ministério das Cidades, Luiz Carlos de Lima. "Não tenho conhecimento disso. Apenas a CGU analisou a documentação do Estado de Mato Grosso. Analisou a proposta do Estado. E não foi contrária", disse o ministro, ignorando a existência do parecer também revelado pelo Estado na edição de ontem.

 

Ao manifestar-se pela primeira vez sobre a fraude na pasta, revelada pelo Estado na edição de quinta-feira, o ministro mostrou-se evasivo e impaciente, disse que não vai prejulgar nem demitir servidores, e desligou o telefone, abandonando a entrevista aos 11 minutos.

 

"O Cássio é uma pessoa da confiança e ele faz parte do G-Copa. Ele solicitou que reanalisassem o projeto. Agora (ele) não pediu a meu mandado não, hein, companheiro! Não mandei. Ele disse a mim que pediu (a reavaliação do parecer técnico da pasta). Não fui eu que pedi a ele", afirmou Montenegro.

 

A pedido de Cássio Peixoto, a diretora de Mobilidade Urbana da pasta, Luíza Gomide Vianna, alterou a nota técnica 123/2011 feita no dia 8 de agosto e assinada pelo analista Higor Guerra. O primeiro parecer pedia o aprofundamento dos estudos sobre VLT antes que fosse tomada qualquer decisão.

 

O parecer seguinte, assinado por Luíza Vianna, é datado de 8 de setembro deste ano, tem o mesmo número do anterior e abriu caminhos para a instalação de um projeto do VLT. O Estado divulgou ainda áudios de reunião na pasta em que Luíza Vianna afirma ter sido procurada por Cássio Peixoto, que lhe pediu a revisão do primeiro parecer.

 

‘Eu já ouvi’. Durante a entrevista na sexta-feira, convidado a escutar novamente os áudios de Luíza Vianna, Negromonte reagiu: "Eu já sei, eu já sei... Eu já ouvi. Eu respondo a todas as perguntas que você quiser. Não houve proposta indecorosa para que ela (Luíza) mudasse a proposta dela. A decisão é de colegiado. Estão querendo colocar chifre em cabeça de jumento".

 

Segundo o ministro, o assunto foi debatido num colegiado e trata-se simplesmente de uma divergência de opiniões entre técnicos. Negromonte, mais uma vez, ignorou o fato de a segunda nota técnica reproduzir exatamente o número da primeira e ter sido colocada na mesma página do processo sobre mobilidade urbana.

 

"Não houve fraude. Nós vamos apurar. Mandei imediatamente instalar uma sindicância para apurar. O que houve foi divergência de opinião dos técnicos. Tem a opinião do técnico, dando o parecer, e outra opinião da diretora Luíza Gomide, que é mais preparada, reavaliou o parecer. Não tem fraude", repetiu insistentemente o ministro.

 

Exonerações. Ao ser questionado se os áudios não são prova suficiente para que tome uma medida em relação aos servidores envolvidos no caso, Negromonte afirmou que não passará "a mão na cabeça de ninguém, mas não fará prejulgamentos".

 

"Deixa eu falar: se houve comportamento errado, a sindicância vai apurar, companheiro. Não vou botar a mão na cabeça de ninguém. Não compactuo com isso", retrucou.

 

O ministro atacou o repórter Leandro Colon, do Estado, autor das reportagens. Questionado sobre seu desconhecimento do parecer elaborado pelo órgão de controle interno do governo federal, a CGU, Negromonte exaltou-se: "Companheiro, a CGU não disse isso. Eu não tenho esse conhecimento. A manchete precipitou. O jornal precipitou. Eu não tenho esse relatório em mãos, companheiro". Indagado se não estava enganando a opinião pública, acrescentou: "Você é que engana, você é que mente. Tenha responsabilidade. Não houve fraude. Vamos apurar. Você quer prejulgar. Quem é você para prejulgar?"

 

Com o pretexto de que entraria numa solenidade pública em Salvador, o ministro repetiu que instalou a sindicância na pasta e que tudo será apurado. "Quem estiver errado vai pagar." Minutos depois, após tantas perguntas sem resposta, Negromonte desligou o telefone.

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.