Ministro diz estar 'submetido a fogo amigo e inimigo'

Ministro diz estar 'submetido a fogo amigo e inimigo'

Cardozo lembra que foi chamado de 'sonso' por deputado tucano e, agora, ouve queixas do PT sobre Operação Lava Jato

VERA ROSA / BRASÍLIA , O Estado de S.Paulo

27 de novembro de 2014 | 02h03

Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo está sob fogo cerrado, que parte tanto do PT, seu partido, quanto dos opositores tucanos. "No PSDB um deputado já me chamou de sonso e operador do submundo e agora setores do PT e da base aliada dizem que eu não controlo a Polícia Federal", afirmou ele. "No fundo, as pessoas acham que só inimigos devem ser investigados; os amigos, não."

A presidente Dilma Rousseff decidiu manter Cardozo no cargo, apesar de críticas no PT, que o batizou de "pelicano" - o mais tucano dos petistas. Questionado se sentia-se queimado pelo fogo amigo durante a operação que escancarou um esquema de corrupção na Petrobrás, Cardozo abriu um sorriso: "Não é fogo amigo, nem inimigo. Fogo é fogo".

Sentado num antigo sofá oriundo do Palácio do Catete, no Rio, ele conta que o móvel precisou ser resgatado às pressas da biblioteca do ministério, na segunda-feira. A troca foi necessária depois que o diretor-geral da Polícia Federal, Leandro Daiello, quebrou o pé do outro sofá que estava no gabinete, ao esparramar-se sobre ele. "O clima na PF anda pesado", brincou Cardozo. Leia os principais trechos desta entrevista concedida ao Estado:

Políticos e dirigentes do PT dizem que o sr. não controla a Polícia Federal e alguns chegaram a afirmar que deveria deixar o cargo. Como o sr. reage às críticas?

Em geral, o mundo político não entende o papel do ministro da Justiça diante de instituições policiais que atuam de maneira autônoma. Quando houve o caso do cartel dos trens e do Metrô de São Paulo, eu era acusado de instrumentalizar tanto o Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) como a Polícia Federal para atacar o PSDB. Então, no PSDB um deputado me chamou de sonso, vigarista e operador do submundo. Agora, setores do PT e da base aliada dizem que eu não controlo a PF. Não é uma coisa nem outra. No fundo as pessoas acham que as investigações têm de ser direcionadas, que só inimigos devem ser investigados; os amigos, não.

Sente-se vítima de fogo amigo? Eu estou submetido a fogo amigo e inimigo. Fogo é fogo.

O senador Jorge Viana (PT-AC) chegou a dizer que o sr. precisa ser mais firme para inibir vazamentos seletivos da Polícia Federal na Operação Lava Jato.

Lamento que o senador não tenha vindo falar comigo porque eu o teria esclarecido. Acho que ele incorreu num equívoco. Em todos os casos em que havia sigilo e que houve vazamento na Lava Jato, configurando situação ilegal, eu determinei abertura de inquérito. O senador, porém, se referiu a um vazamento em delação premiada que envolvia, em tese, um senador do PT (Humberto Costa, líder do partido no Senado, apontado pelo ex-diretor da Petrobrás Paulo Roberto Costa como beneficiário de R$ 1 milhão do esquema). Ocorre que essas delações não estão sob guarda da Polícia Federal, mas, sim, do Ministério Público. Eu pedi ao Judiciário acesso aos depoimentos, mas me foi negado. Não se pode pedir energia para o ministro da Justiça, quando as medidas cobradas não estão sob sua responsabilidade.

A Operação Lava Jato provocou uma crise política no País. Qual é a saída para o governo?

Eu não vejo uma crise política. Pelo contrário, acho que o governo foi muito claro e muito firme.

Mas há integrantes do PT, do PMDB e do PP envolvidos em denúncias de corrupção na Petrobrás. Há informações de que a Lava Jato atingirá 70 políticos...

Eu vi nomes de pessoas da base aliada e da oposição envolvidos. Ao que tudo indica, existe uma situação que atinge várias forças políticas.

O ministro de Minas e Energia, Edison Lobão, do PMDB, foi citado como beneficiário do esquema da Petrobrás. A saída dele será o primeiro impacto da Lava Jato sobre a montagem do novo governo, não?

Eu não sei se ele é citado porque não tenho acesso à delação premiada. Quem deve continuar no governo ou não é uma decisão da presidenta.

O tesoureiro do PT, João Vaccari, também foi citado em depoimentos como operador de um esquema de desvio de recursos da Petrobrás. O sr. foi redator do Código de Ética do PT, que fala em punição para envolvidos em corrupção. Não é o caso de se aplicar o Código de Ética agora?

O Código de Ética é claro e fala em punições para pessoas condenadas. É ruim quando se prejulga. Não faço isso com a oposição, não faço isso com as pessoas do meu partido.

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