Ministro da Justiça diz que Tuma terá melhor defesa fora do cargo

Luiz Paulo Barreto observa que ex-ministro responde a três investigações

Vannildo Mendes, de O Estado de S.Paulo

14 de junho de 2010 | 18h42

BRASÍLIA - Acusado de envolvimento com a um dos chefes da máfia chinesa em São Paulo, o secretário nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior, foi demitido nesta segunda-feira, 14, do cargo pelo ministro da Justiça, Luiz Paulo Barreto. Em nota, o ministro observou que Tuma Júnior responde a três investigações - na Comissão de Ética da Presidência da República, no próprio Ministério e na Polícia Federal e que, estando fora do cargo, ele "poderá melhor promover sua defesa".

 

Ressentido com a demissão, que tentava reverter a todo custo, o secretário saiu atirando. Ele disse que foi alvo de arbitrariedades da Polícia Federal, atribuiu sua desgraça à conspiração de setores mafiosos incomodados com sua atuação, acusou o governo de agir com "covardia política" e deu a entender que haverá troco. "A verdade virá à tona! Vão surgir fatos que vocês vão se arrepiar, aguardem!", disse. Tuma disse que é amigo do ministro. "Ele é meu amigo e está tão amargurado quanto eu", disse Tuma, negando que o termo "covardia política" era destinado ao ministro.

 

Barreto ainda tentou suavizar o ato, destacando na nota "os relevantes trabalhos" prestados por Tuma à frente do cargo, mas não funcionou. Tuma disse que, agora, sem as amarras éticas de estar à frente de um cargo de confiança, vai se defender e mandou um aviso aos setores do governo que, a seu ver, contribuíram para sua queda. "Minha história de vida, do meu pai e minha família, ninguém vai manchar", afirmou. O secretário explicou que contrariou interesses à frente do cargo e, como garantiu, ele é que teria sido vítima "da verdadeira máfia". Indagado a quem se referia, o secretário evitou citar nomes, mas registrou que "tem muita gente envolvida, políticos também". E insistiu, enigmático: "Vocês verão coisas cabeludas! Confio na justiça, o tempo vai restabelecer a verdade".

 

Tuma, que chegou ao governo numa negociação política para que seu pai, o senador Romeu Tuma (PTB-SP), aderisse à base aliada do governo, não quis condenar diretamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas mostrou-se ressentido com o governo. "Foi uma grande injustiça para um governo democrático".

 

Gravações telefônicas e e-mails interceptados pela Polícia Federal durante investigação sobre contrabando ligaram Tuma Júnior, ao principal alvo da operação, Li Kwok Kwen, como revelou o Estado em uma série de reportagens. A relação do ex-secretário com Kwen, conhecido como Paulo Li, foi mapeada ao longo dos seis meses da investigação que deu origem à Operação Wei Jin (trazer mercadoria proibida, em chinês), deflagrada em setembro de 2009.

 

De acordo com a assessoria do Ministério da Justiça, Tuma Júnior afirmou que a divulgação completa dos áudios da investigação demonstrariam sua completa inocência. Por intermédio da assessoria, Tuma disse que não vai retaliar nem faz ameaças.

 

A situação do secretário ficou insustentável diante das provas levantadas pela PF e seu destino foi selado numa reunião de Lula com Barreto, na última sexta-feira. Mas Tuma resistia a pedir demissão, como sugerira o ministro, por considerar que isso significaria admissão de culpa. Ontem, Barreto perdeu a paciência com a teimosia do secretário e o demitiu por ato administrativo, sem apelação.

 

Tuma, que ainda tinha esperança de reverter o quadro, ficou desconsolado ao tomar conhecimento da demissão pela imprensa.

 

Tuma, que ainda tinha esperança de reverter o quadro, ficou desconsolado ao tomar conhecimento da demissão pela imprensa. "Não pedi demissão, nem pretendia fazê-lo", disse ele, visivelmente emocionado.

 

"Na hora que o secretário de justiça se curvar a uma injustiça monstruosa dessas, presta um desserviço à população", explicou. "Minha obrigação é proteger à sociedade, pois se acontece isso comigo, imagine com o Zé da Silva", acrescentou.

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