Ministra tem gosto pelo confronto e 'pavio curto'

Defensora no Senado de Sarney e Renan nas acusações de desmandos, Ideli ao mesmo tempo sempre mostrou resistência na aliança política com o PMDB

Rosa Costa e Eduardo Bresciani / BRASÍLIA ,

10 de junho de 2011 | 23h00

Escolhida articuladora política para azeitar as relações do Planalto com o Congresso, a nova ministra das Relações Institucionais, Ideli Salvatti, ganhou no Senado um acervo de adjetivos que expressam uma personalidade pouco conciliadora: "tropa de choque" e "pavio curto".

 

São inúmeros os episódios em que Ideli foi escalada para confrontar a oposição ou marcar território na disputa com parlamentares de outros partidos da base aliada. Ao longo de oito anos de mandato, ela foi duas vezes líder do PT e três vezes líder do bloco do governo.

 

Com a oposição, Ideli, cuja defesa do governo do então presidente Luiz Inácio Lula da Silva pesou a seu favor, trocava discussões ásperas. A senadora Kátia Abreu (DEM-TO) chegou a chamá-la, ao vivo, de "arrogante" e o senador Tasso Jereissati (PSDB-CE) de "ridícula".

 

A futura encarregada da articulação política do governo, vez por outra, era repreendida até pelos aliados. Certa feita o senador Mão Santa (PMDB-PI) pediu no plenário que ela "por educação, sente-se ou, aliás, é até melhor, que se retire".

 

Com relação ao PMDB, Ideli manteve uma postura dúbia. Ela contrariou parte da bancada ao tomar a frente da defesa do então presidente do Senado Renan Calheiros (AL) e do atual, José Sarney (AP), nas acusações de desmandos administrativos e uso de dinheiro público.

 

Mas sempre mostrou resistência na aliança política com o partido, sobretudo na divisão de cargos. É de Ideli o recado para que "o PMDB brinque para ver", referindo-se ao período em que Sarney dizia não querer a presidência e o PT bancava a ida de Tião Vianna (AC) para o cargo.

 

O estilo "trator" da senadora se intensificou na derrubada da CPMF no Senado. Mesmo derrotada, ela ameaçou os colegas, dizendo que eles iriam "beneficiar sonegadores" e que teriam de "assumir as consequências".

 

Na defesa do então ministro da Fazenda, Antonio Palocci, em 2006, Ideli apontou "uma tentativa de golpe" nas denúncias do caseiro Francenildo dos Santos Costa.

 

Acusações. Durante o mandato, a então senadora foi acusada de usar influência política com o Planalto para repassar, entre 2003 e 2007, R$ 5,2 milhões à Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (Fetraf-SC), para promover cursos de formação profissional.

 

Na ocasião, a suspeita era de que parte desse dinheiro foi usada em campanhas de aliados da senadora em Santa Catarina e que, para justificar os gastos, planilhas teriam sido falsificadas com "alunos fantasma". Ideli, na época, afirmou que nunca apresentou emendas em favor da Fetraf-SC, "mas, sim, emendas para fortalecer a organização dos agricultores familiares para ampliarem a sua capacidade produtiva".

 

A oposição "comemorou" a escolha de Dilma porque pode sinalizar uma nova crise entre os partidos da base, por conta da suposta inaptidão de Ideli para o cargo. "Prefiro alguém como ela, que seja mais de trombada, do que alguém dissimulado", afirma o líder do DEM, Demóstenes Torres (GO). Já o líder do PSDB, Álvaro Dias (PR), diz que está "acostumado a ter acordos desrespeitados, a não avançar além dos limites já conhecidos".

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