Ministra evita entrar em polêmica sobre transgênicos

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, afirmou que o governo busca encontrar uma solução duradoura para o problema da produção e comercialização dos transgênicos no País. E qualquer que seja a decisão adotada, será fruto de um consenso entre representantes de todos os ministérios envolvidos na questão. As declarações foram dadas depois do encerramento do seminário A ameaça dos transgênicos: Propostas da sociedade civil, realizado em Brasília. Organizadores do encontro entregaram à ministra um documento em que pedem a a exportação da soja transgênica do Rio Grande do Sul. "Não queremos que a cada ano, tenhamos de criar medidas excepcionais para atender a determinadas demandas", afirmou, referindo-se à necessidade do atual governo de criar um instrumento legal que permita o escoamento de uma safra considerada proibida no País. Para ela, a demora da Advocagia Geral da União (AGU) em encontrar uma solução jurídica que permita o escoamento da safra gaúcha de soja transgênica mostra "que há uma postura cuidadosa do governo em dar uma resposta adequada". A ministra disse compreender a delicadeza do tema, pois envolve problemas econômicos, sociais. Marina evitou polemizar com o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, que tem defendido os alimentos geneticamente modificados. "Os ministros têm procurado fazer aquilo que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem dito, que é construir uma posição de governo", disse . Ela afirmou que não expõe em público sua opinião sobre o assunto. Qualquer manifestação, disse, será feita quando uma decisão em conjunto for acertada. A ministra comprometeu-se ainda estudar as propostas apresentadas pelas entidades contrárias aos alimentos geneticamente modificados. "Vamos analisá-las da mesma forma que estamos avaliando sugestões de outros setores", disse. O documento preparado pelos organizadores do seminário foi entregue à ministra em evento realizado em plenário da Câmara dos Deputados. Os demais ministros que compõem a comissão interministerial foram convidados para o ato na câmara, mas não compareceram.No documento, os organizadores pedem que a exportação seja feita para países onde o uso de transgênicos é permitido. Preferencialmente, que a soja seja usada para consumo não-alimentar humano ou animal. Na avaliação dos exportadores, a exportação da soja contaminada é possível tecnicamente. Depende apenas de uma decisão do governo de orientar o mercado. Dado o alto volume excedente de soja exportada do Rio Grande do Sul, previsto em 7 milhões de toneladas neste ano, o governo deverá participar das negociações com os governos de países importadores, em particular da China, grande importador de grãos.Organizadores atribuíram o plantio ilegal de soja transgênica no Rio Grande do Sul ao comportamento "criminoso da multinacional Monsanto, que, além de fazer maciça propaganda enganosa das sementes transgênicas, nunca informou com clareza que o produto era proibido", conforme o documento.A responsabilidade da Monsanto, segundo os organizadores, foi compartilhada pela omissão de integrantes do governo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso: "A Polícia Federal não impediu o contrabando de sementes, o Departamento de Defesa e Inspeção Vegetal do Ministério da Agricultura não impediu os cultivos ilegais, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária não fiscalizou a comercialização de produtos contaminados, a CTNBio afirmou várias vezes que o plantio estava liberado e o próprio ex-ministro da Agricultura, Pratini de Moraes, repetiu essa afirmação de ampla divulgação em várias ocasiões."O atual ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, também não escapa da fúria dos movimentos contrários aos transgênicos. "Infelizmente, o atual ministro vem colaborando com o clima de aceitação da ilegalidade, ao participar de evento no Rio Grande do Sul, onde se consumiu produto transgênico, em franco desafio à lei e ao governo, que deve garanti-la."ManifestaçõesDuas manifestações de agricultores, uma a favor e outra contra os transgênicos, interromperam o trânsito na região metropolitana de Porto Alegre e no Alto Jacuí hoje de manhã. Cerca de 3 mil pequenos agricultores saíram de Canoas ao amanhecer e caminharam 16 quilômetros até a sede do Banco Central, em Porto Alegre, onde chegaram ao meio-dia. Eles querem a renegociação das dívidas, liberação de R$ 20 mil para investimento em cada propriedade, proibição dos transgênicos e indenização aos agriculores que compraram sementes geneticamente modificadas. A manifestação faz parte da Marcha Camponesa por um Brasil Sem Fome, que também ocorre em outros 16 estados. A passeata dos pequenos agricultores estendeu-se por 9 quilômetros e impediu o fluxo de veículos numa das pistas da BR-116 e da Avenida Farrapos, uma das mais movimentadas da capital gaúcha. O trânsito só voltou à normalidade no final da manhã. Na região do Alto Jacuí, plantadores de soja transgênica promoveram um desfile de tratores que chegou a ter 15 quilômetros de distância entre a primeira e a última máquina. A concentração começou às 6h30 em Ibirubá, a 295 quilômetros de Porto Alegre. Ao longo de 60 quilômetros, até Não-Me-Toque, a manifestação foi engrossada com a adesão de mais produtores a cada trevo de acesso à rodovia principal. Como os tratores percorreram zonas rurais, com deslocamento pelo acostamento das rodovias e acompanhado pela Polícia Rodoviária Federal, as interrupções do tráfego foram rápidas. Depois de passarem em frente ao parque de exposições, os manifestantes foram para o centro de Não-Me-Toque e promoveram um ato público. Nos discursos, lembraram que o cultivo de soja transgênica custa 30% menos que o da soja convencional e pediram liberdade para escolher o que desejam plantar.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.