'Ministério rosa' altera cenário da Esplanada

'É preciso mudar a cultura, já que a sociedade e o meio político ainda são muito machistas', diz secretária de Políticas para as Mulheres

Rafael Moraes Moura, O Estado de S.Paulo

10 de janeiro de 2011 | 19h52

A Secretaria de Políticas para as Mulheres (SPM) jamais foi comandada por homens, mas a placa do veículo oficial diz: "Ministro de Estado chefe da SPM/PR". A pedido da ministra Iriny Lopes, uma nova placa está a caminho. Além das adaptações gramaticais de gênero em veículos e letreiros, a Esplanada rosa do governo Dilma trouxe uma série de mudanças ao cinzento meio político: mais mulheres em postos estratégicos, mais orquídeas tomando conta de gabinetes e mais uma preocupação para assessorias - a tarefa de carregar a bolsa da ministra.

 

Em seu discurso de posse, Miriam Belchior (Planejamento) frisou a importância da presença feminina no poder. "Além de toda responsabilidade que assumo hoje como gestora do Ministério do Planejamento, tenho outra missão a cumprir, juntamente com a nossa presidenta e as outras ministras: demonstrar que as mulheres podem dividir com os homens a condução do País."

 

Miriam ainda não completou sua equipe, mas privilegiou mulheres nos cargos mais importantes da pasta. Escolheu Iraneth Rodrigues Monteiro para ser a secretária-executiva, na prática uma vice-ministra. Na poderosa Secretaria de Orçamento Federal, encarregada de segurar ou liberar recursos para os ministérios, manteve Célia Corrêa.

 

Na Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial, a saída do ex-ministro Eloi Ferreira Araújo e a chegada de Luiza Bairros reverteu a divisão entre mulheres e homens no corpo de funcionários: elas são, agora, 73; eles, 72. Na SPM, são 95 contra 25.

 

"É preciso mudar a cultura, já que a sociedade e o meio político ainda são muito machistas", diz Iriny ao Estado. "A placa (de carro) é um símbolo, e símbolos têm muita força. Ministro e ministra são coisas diferentes." Suas colegas de governo Ana de Hollanda (Cultura) e Izabella Teixeira (Meio Ambiente) já circulam com o "A" de ministra estampado sobre rodas.

 

No caso de Ideli Salvatti (Pesca e Aquicultura), ela já havia começado a trabalhar no "gabinete do ministro", quando, na quinta-feira passada, duas letras de metal coladas com superbonder e araldite rebatizaram o espaço como "gabinete da ministra".

 

Orquídeas e filhos. Para assessores, a nova rotina traz mudanças. "Você tem de ficar atento à bolsa, carregá-la, de vez em quando ligar pra família para ver se está tudo bem, olhar a maquiagem", diz um deles. A preocupação com os retoques estéticos é ainda maior na presença de câmeras, quando a autoridade precisa gravar para a TV, zelando pela imagem do governo e dela própria.

 

Também é comum os interlocutores puxarem papo perguntando "Como vão os filhos?", em vez de recorrerem aos resultados do futebol. O Estado apurou que uma ministra não gosta que se dirijam a ela usando termos no diminutivo, por considerá-los pejorativos.

 

Tal como os homens, mas com mais personalidade e afeição aos detalhes, as mulheres do governo gostam de conferir toques pessoais aos locais de despacho. A veterana Izabella Teixeira, por exemplo, adora orquídeas. As plantas também são queridas por Maria do Rosário (Direitos Humanos) e Iriny, que pretende decorar com folhagens os corredores da Secretaria de Políticas para as Mulheres.

 

No gabinete de Iriny e nos demais de Brasília, permanece emoldurada a fotografia do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. "Ele é uma gracinha, meu companheiro de partido, mas agora a Dilma é a presidenta", comenta Iriny. Não se sabe quando a foto de Dilma ficará pronta, mas a placa de "ministra de Estado chefe da SPM/PR" deve ser entregue nesta semana.

 

Colaborou Lu Aiko Otta

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